Bandeirantes

Por: Mauro Ferreira

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A moça, com os longos cabelos sem trato e sem viço escorridos sobre o rosto não esconde o cansaço e a tristeza. Sentada sobre uma banqueta no caixa do grande e ruidoso magazine de eletrodomésticos, sequer levanta os olhos quando pergunta o nome da pessoa que chega e se senta a sua frente.


As perguntas mecânicas que faz são todas indispensáveis para preencher um enorme questionário para fins cadastrais e abertura de um carnê de crédito para a compra de uma nova televisão de plasma, também indispensável para a vida moderna e para acompanhar as novelas da Vênus Platinada e suas odisséias. Endereço, data e local de nascimento, número do CPF e do RG, estado civil. Só quando se espanta com a profissão da moça é que ousa levantar os olhos.


Bandeirante? Profissão bandeirante? Naquele momento, a funcionária do magazine reviveu as modorrentas aulas de história do Brasil da dona Dorotí Lamur na escola pública da periferia, no jardim México, quando o sono batia e alguns moleques encapetados do segundo colegial ficavam jogando pedras nos vidros, assustando todo mundo. Mas bandeirantes não eram aqueles sujeitos do tempo do onça, que ficavam entrando Brasil adentro com botas de cano alto e largo, atrás de índios, ouro e animais silvestres? Ou seriam aqueles outros, das entradas? Não entendiam nada de ecologia, seu negócio era matar e escravizar índios e bichos, roubar as riquezas da terra e levar embora para Portugal, pelo menos era o que se lembrava daquelas aulas chatas, enquanto o sinal não tocava e tinha que sair correndo para pegar o último ônibus e voltar para casa morrendo de medo da escuridão, que a companhia de luz não trocava as lâmpadas que os “manos” quebravam na rua esburacada em que vivia com os pais e os cinco irmãos menores.
 

Olhou atentamente para a moça que havia informado profissão tão estranha. Era do mesmo tipo seu, mesma idade, a pele branca ressecada e avermelhada pelo sol e pela baixa umidade e temperatura desértica que estava fazendo na região. Longos cabelos, olhos negros, provavelmente evangélica como ela mesma, longo vestido estampado, sandálias rasteiras, olheiras, acne, óculos fundo de garrafa. Lá fora da loja, o sol esturrica e a voz do prefeito demagogo num carro de som exalta as virtudes de um candidato que nem sabe onde fica a cidade e seus bairros pobres, logo seguido por uma musiquinha pegajosa cantada por dupla caipira desafinada.
 

Perguntou novamente: “profissão bandeirante, o que significa isso?” A outra, quase envergonhada, respondeu: “é, sou bandeirante. Fico segurando e agitando as bandeiras dos candidatos do prefeito na rua, o dia todo, debaixo de sol e poeira. Geralmente é aqui nas ruas do centro, mas tem dia que é lá pros lados das fábricas. Mas eu garanto que é o suficiente para pagar as prestações da TV, principalmente se o candidato do prefeito ganhar, ele prometeu que vai dar uma gorja extra prá todas nóis, as bandeirantes”.

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