Sultão

Por: Marco Antonio Soares

Rufino alongou o olhar para as bandas do Rio Grande, viu as águas que corriam lentamente. Pensou que o rio era como um homem, a distancia demonstrava a mansidão, mas correntezas, redemoinhos é que moviam suas águas. O ruflar de asas e o contar de um galo índio, sobre a cerca do curral, fez com que voltasse os olhos para a invernada. 


Sultão, majestoso, balouçava o corpo num caminhado mole. A cabeça erguida parecia fitar o horizonte. A máscara cinza lhe acentuava o aspecto amedrontador.


Abraçado ao cupim enorme, o corpo pequeno e seco de Juquinha acompanhava o ritmo sacolejante do touro. Em vão, dava com os calcanhares na musculatura rija. Com destreza o menino saltou, suas mãos distribuíram afagos na cara da enorme criatura. O rosto magro se aproximou ternamente, e um abraço desproporcional foi acompanhado de palavras balbuciadas numa tonalidade mais infantil do que lhe permitia a idade. Rufino, o pai, observava a cena suspirando remorsos, sentimento pesado e bruto que cansa a gente parado e despacha sono atrasado.


Seu Zé Brás, com o Panamá na destra, procurava no chão o que não havia perdido. Provavelmente, notas promissórias fervilhavam em sua cabeça. Aquele homem era de uma velhice bonita, cabelos cor de prata e rugas forjadas na lida. Mas Deus tem das suas, às vezes, corta as asas da águia e faz dela uma galinha.


 Em movimentos demasiadamente lentos, pensando desistir da empreitada, Rufino foi tirando do ombro a papo-amarelo. Mas sentiu um calor subir-lhe ao rosto, ao se lembrar dos favores que seu Zé Brás lhe fizera: as despesas com remédios, quando Juquinha adoecera, a reforma da casa, que era a melhor da colônia. Enfim, a submissão, a assassina do privilegio de se poder dizer não.


O nelore permanecia impassível, vez ou outra dava com os cascos na terra batida. Átila sentiria inveja.


 Juquinha correu para os braços rudes da mãe, que trouxe a cabeça miúda do filho para junto de seu colo. Os olhos e ouvidos infantis foram levemente envolvidos.


Nem a dureza do sertão nem a vivencia de Zé Brás puderam evitar que lagrimas despencassem de seus olhos, para caírem no massapé que logo já não lhe pertenceria.


Sultão, símbolo de riqueza da Fazenda Itapixé, transformara-se em ultimo recurso financeiro para honrar compromissos menores.


Rufino apertou o olho direito, prendeu o fôlego, trouxe a testa do boi para dentro da mira. Seu dedo começou a deslizar pelo gatilho da carabina...


A tranqüilidade aparente do ria escondia o torvelinho de suas águas mais profundas!

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