Maiêutica infantil

Por: Lívia da Silva Inácio

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-Mãe!              .
– Sim?        .              
– Onde é o fim do mundo?
– O mundo não tem fim.
– Mas o papai disse que a tia Joana mora lá no fim do mundo...
– Modo de dizer, filho...
– Mas... Fim do mundo... Dever existir sim o fim do mundo!
– Não, Juninho. Não existe!
– Ah, mas existe sim. Se eu andar e andar eu ainda chego no fim do mundo, a senhora vai ver!
– Está certo.
– Aí eu te falo onde é tá, mãe!
– Tá certo!
 Juninho volta cinco minutos depois.
– Mãe.
– Diga.
– Por que a gente dorme?
– Porque a gente se cansa.
– Mas por que a gente se cansa?
– Porque ninguém é de ferro, filho.
– Ah, então quem é de ferro não se cansa?
– Não.
– E quem é de ferro?
– Ninguém.
– Ninguém, mãe?
– Ninguém, filho.
– Mas isso está errado, mãe!
– O que?
– Tínhamos que ser de ferro!
– Por quê?
– Imagine só, mãe, se todo mundo fosse de ferro: Ninguém ficaria cansado!
– Ai, meu filho!
– Mas ia ser chato, né, mãe?
–  O que?
– A vida. Todo mundo iria gostar de acordar cedo. Bem, acordar não, porque ninguém dormiria não é? E que graça teriam as férias? Ninguém iria se importar se as férias chegassem. Aliás, ninguém precisaria de férias.
– Verdade.
– Seria tudo tão chato. Todo mundo iria querer trabalhar. Ninguém olharia para ninguém.
– Verdade.
– Mãe! Acabo de descobrir agora!
–  O que?
– A importância da preguiça!
– Como?
– Se ninguém tivesse preguiça, todo mundo teria preguiça de viver.
– Como assim?
– Ora, mãe, a vida seria uma coisa tão trabalhosa, com tanto trabalho que não teria graça. As pessoas fabricariam um monte de regadores, mas nunca parariam para ver a beleza de uma flor que foi regada. Imagine só!
– É filho, você tem toda razão. Vá pegar o sabão em pó pra mamãe na varanda, por favor.
– Tá.
 Juninho volta correndo e entrega o sabão em pó para a mãe.
– Mãe.
– Sim?
– Por que a nossa casa tem parede?
– Para segurar o teto.
– Mas e se tivesse só as portas, não daria para segurar o teto?
– Não.
– Mas...
– Ah, Juninho! Vá brincar!
– Mas, mãe...
– Deus é pai! Diga, menino!
– Nossa, mãe!
– O que?
– Deus é pai?
– Sim.
– Mas quem é o pai de Deus?
– Não sei.
– Não sabe?
– Não.
– Mas como, não sabe?
– Deus não tem pai, Juninho!
– Não?
– Não.
 Dois minutos depois o menino volta.
– Mãe.
– Sim?
– A senhora não fica com pena dele?
– De quem?
– De Deus.
– Por quê?
– Porque ele é tão bom... E nem tem pai.
– Juninho...
– Mas ele tem mãe, não tem?
– Não sei.
– Não sabe?
– Não, filho, é porque...
– Ele tem ou não tem mãe?
– É que ele não é gente como a gente, filho.
– Então ele é de ferro?
– Não.
– Mas...
– Ele nunca dorme, mãe?
– Não.
– Então ele é de ferro?
– Não!
– Mas, mãe...
– Um dia entenderemos tudo isso, filho....
– Um dia, quando, mãe?
– Ah, filho! Vá brincar!
– Tá bom, mãe, não fique brava comigo, eu já vou.
 Juninho some. Desesperada, a mãe pergunta à vizinha se ela sabe onde seu filho está e a vizinha responde tranqüilamente, sentada na calçada:
– Há algumas horas ele estava aqui na rua. Saiu dizendo que iria procurar onde fica o fim do mundo e que já estava voltando.

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