País de doutores

Por: Mauro Ferreira

No passado, o Brasil era um país de doutores bacharéis. Hoje, um dos principais problemas colocados pelo desenvolvimento do país é a formação tecnológica. As cidades e as empresas não funcionam sem bons engenheiros, técnicos em informática e tantos outros profissionais, que o país deixou de lado durante os longos anos FHC, que sucateou as universidades federais e não investiu como deveria em ciência e tecnologia. No governo Lula, a criação de 13 novas universidades federais e novas vagas nas existentes, o Prouni e 214 novos Centros de Tecnologia começaram a mudar o rumo da situação. Mesmo com os avanços, ainda estamos longe do que precisamos, faltam engenheiros e técnicos capacitados.

Graças ao empurrão involuntário que certo prefeito me deu, fiz o mestrado em arquitetura na USP, que foi ótimo para minha vida profissional. Durante vários anos, ainda na década de 80, com pista simples e sem pedágios abusivos, viajei para São Carlos semanalmente num Gol a álcool (que eu sempre acabava empurrando no inverno, a tecnologia ainda era embrionária) até concluir os créditos e escrever a dissertação. Foi quando conheci o Newton Lima, então reitor da universidade, hoje meu candidato a deputado federal. A existência de duas grandes universidades públicas fez de São Carlos uma terra de doutores, é a maior concentração por habitantes do país, que a fez tornar-se um pólo de excelência em tecnologia.

No início deste novo século, resolvi voltar aos bancos escolares, na mesma universidade pública, para fazer o doutorado. Nova saga, uma espécie de replay vinte anos mais velho, só jovens recém-formados na sala de aula e eu. Conciliando viagens, trabalho, família, muita leitura e aprendizado, consegui concluir o doutorado em planejamento urbano. Entrei para as estatísticas duplamente: o primeiro e mais velho doutor do departamento de arquitetura da USP de São Carlos.

Não ligo para títulos. Por isso, o dia seguinte à defesa da tese foi um dia igual aos outros, fui abastecer o carro no posto do Mário Roberto. O frentista foi logo dizendo: “vai calibrar os pneus, doutor?” Respondi de bate-pronto: “nossa, como as notícias correm, eu cheguei ontem à noite de São Carlos, logo após a defesa da tese, como é que você já descobriu que virei doutor?”

Melhor aconteceu pouco depois, que me levou de volta rapidamente ao Brasil verdadeiro. Conheci um senhor na fila de espera para falar com o gerente do banco, conversamos amenidades enquanto esperávamos. Ele logo foi atendido solicitamente pelo gerente, que o chamou de doutor, depois foi minha vez. Como não o conhecia, perguntei inocentemente: “esse senhor que foi atendido antes de mim é doutor em quê?”

Com um sorriso brincalhão no rosto, o gerente me explicou: “esse daí é mestre pelo Bradesco, doutor pelo Unibanco e pelo saldo médio da conta, se é que me entende”. Era um grande correntista e investidor da agência bancária, ou seja, um verdadeiro doutor brasileiro.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras