Labirintos e oásis

Por: Silvana Bombicino Damian

Não sei porque no banheiro.A melhor explicação que encontro é que era o único lugar em que eu estaria sozinha. Era final da década de sessenta e eu estava na casa de meus padrinhos, Silvio e Isabel de Carvalho.Provavelmente numa festa de fim de ano.A casa grande e iluminada, repleta de convidados e alegria.Quando me vi sozinha no banheiro, comecei a olhar minuciosamente cada detalhe do piso, azulejos, pia etc, numa tentativa de segurar o tempo, de absorver através da matéria que me cercava,aquele momento, e prolonga-lo além do que seria seu tempo natural.

Eu já havia descoberto a infinita finitude de tudo e creio que tentava de alguma forma reverter esse processo, de mostrar ao tempo que eu tambem poderia estar no comando e fazer durar aqueles instantes mais do que ele, tempo, o faria. Não sei se estava feliz e não queria que aquela noite acabasse, ou se fazia aquilo por pura pirraça.Acredito mais na segunda hipótese.

Era a madeleine de Proust ao contrário, uma busca racional e objetiva, embora filha da emoção, tentativa inglória de vencer a impetuosidade e frieza com que o tempo varre nossos mundos particulares de alegrias e tristezas, e nos coloca no saco de lixo do esquecimento e irrelevância.

Ao longo de minha vida adulta, as vezes me pego fazendo isso, fotografando com as retinas da alma, alguns momentos de significados diversos, e guardando-os comigo enquanto minha eternidade durar.

Quanto a madeleine de Proust, tambem tenho a minha.Quando a água que esta cozinhando o arroz derrama e entra em contato com a chama do fogão e o alumínio do lado de fora da panela, exala um cheiro que é meu túnel do tempo para o que foi a casa de minha avó, em São Paulo. Sempre as avós. São momentos, frações de segundos as vezes, em que o paraiso nos acena, como se Deus quisesse nos mostrar que há muito mais mistérios e delícias guardados no infinito de nossas almas do que jamais sonharam ou sonharão os vãs filósofos. Então eu me lembro do poema de Manuel Bandeira “Morte absoluta”, e da estrofe que diz:...

“Morrer sem deixar porventura uma alma errante

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu..”

Acho que meu querido poeta se esqueceu.

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