‘Poemas para cantar, músicas para ler’

Por: Sônia Machiavelli

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“Poesia é palavra que (ainda) não foi cantada. Sentimentos são quadros a serem revelados.” Com estas duas frases, na verdade dois versos, Paulo Gimenes conclui a sua introdução ao livro Poemas para cantar, músicas para ler, abrindo as páginas seguintes ao leitor para que empreenda viagem lírica a universo peculiar mas ao mesmo tempo comum aos que se deixam afetar pelos sentimentos que encerra.

Os poemas podem ser lidos em sintonia com as imagens que os ilustram em cores e formas, e ouvidos no disco que acompanha o livro. Lançada no último sábado no Centro Médico, diante dos muitos amigos que lotaram o salão da sede campestre do clube para abraçar, aplaudir e homenagear o poeta, a obra é a primeira do gênero a germinar em terra francana. Os parceiros musicais com quem Paulo Gimenes dividiu a autoria estavam no palco e mostraram aos presentes as composições que agora todos podem bisar ou conferir pela primeira vez, ouvindo o disco, lendo os poemas e analisando o projeto editorial de Susana Andrade Taveira, um dos mais sugestivos trabalhos dos últimos tempos já vistos na cidade.

Os poemas escolhidos para compor o livro já tinham aparecido neste caderno Nossas Letras e chamado a atenção dos mais antenados e dos mais sensíveis - quase sempre os mesmos. Desde os primeiros textos, a maioria em versos, alguns em prosa mas sempre poética, o leitor soube reconhecer o traço autoral, recolhendo lembranças e emoções compartilháveis, remetendo a um passado rural idílico e edênico, em cujas raízes têm bebido os Sérgio Reis e os Renato Teixeira, só para lembrar dois grandes nomes que por certo se sentiriam muito confortáveis cantando Canção Estradeira ou Trem caipira, títulos pertencentes ao repertório e à antologia.

Ao lado dessa característica perfiladora, que ao longo dos anos se condensou e singularizou o poeta, outra ganhou importância, quase como um referendo à primeira. Ao recortar a paisagem, a gente, as cores, as raízes, os bairros, as marcas e os costumes francanos, Paulo Gimenes retratou sua cidade e a ela declarou seu amor, o que se vê claramente em Conjugando Franca. Amor, aliás, é o combustível do poeta nos explícitos Roseira sem flor, Eu e a Rosinha, Ciranda do destino, Tanto querer e Daqueles amor. Algumas vezes o sentimento amoroso o inspira à intertextualidade, como em Belchioriana, outras o desloca para metáforas cinematográficas, como em Gaijin, ou assume um movimento de ascensão como em Veredas. Também o desloca para a crítica social como em Óculos caleidoscópios, além de se mostrar confessional no delicado São Sete e no telúrico Fazenda mamoneira.

Ao ler, há quase três anos, os textos que Paulo Gimenes me encaminhou para avaliação, escrevi que eles me remetiam à poética dos trovadores, aquela mesma que deu origem à literatura portuguesa. É que os trovadores compunham seus poemas e saíam a cantá-los, geralmente acompanhados de menestréis, nos paços e nas feiras. Os gêneros (cantigas de amor ou de amigo) definiriam ao longo do tempo os espaços que acolheriam os músicos - praças ou palácios. Depois, reunidas em cadernos de apontamentos, as canções formariam os cancioneiros que as documentariam para os pósteros.

Paulo confirmou minha impressão ao escrever na sua introdução que “As palavras cantam. Sempre tive esta certeza. Tanto que quase sempre me foi impossível escrever um poema sem junto não compor uma canção.”

Voltei a pensar nos trovadores e menestréis no sábado, ao ver Paulo com seus parceiros na noite de lançamento do livro: Isaac Brasil, Afonso Henrique, Tunico Atallah, Maury Gatti; Marquinho e Leninha, sempre competentes, abrindo o show; Ronaldo Sabino, cuja carreira ascendente é fruto de talento e dedicação. Também refleti sobre a amizade que une o poeta a André Bolela, Enrico Nery, Márcio França, João Carlos e André Canto, Téty e Paulim, Ângelo e Desirê - nomes que se vinculam imediatamente a Franca, e expressam a vocação musical da cidade, por tantos apontada.

Também me vieram à memória naquela noite as palavras do amigo tão saudoso, o filósofo, linguista e escritor Sebastião Expedito Ignácio, a me dizer que “o poeta diz o inefável, realiza o infactível, cria mundos inimagináveis, recria e manipula a realidade. Se um dia faltar a voz do poeta, a humanidade emudece, se desespera, definha e falece.”

Ler o poeta Paulo Gimenes, ouvir as canções que compôs com seus parceiros e alimentar a imaginação com as escolhidas imagens de Susana Andrade Taveira é conceder a si mesmo momentos de amplificada beleza e vida. Todos saem da experiência mais humanizados.


PAULO GIMENES

Paulo Rubens Gimenes, 45, nasceu numa família de sete irmãos, moradora durante anos na Estação, onde as crianças cresceram e os adolescentes despontaram aos cuidados dos pais, José Gimenes, já falecido, e Wanda Lambert Gimenes.

Formado em Comunicação Social pela Universidade de Franca, atua profissionalmente como Consultor de Marketing. Há quatro anos fundou a Let’s Marketing inovando o mercado de palestras e treinamentos ao incluir nas mesmas a música, que atua nestes como forte ferramenta de memorização de conceitos. Participante ativo dos antigos festivais de MPB, Paulo carrega consigo a palavra e a música que semeia em quase tudo que faz. Leitor voraz, credita à leitura a realimentação de seu manancial criativo. É casado com Heloisa Vilella Bittar Gimenes, também colaboradora do Caderno Nossas Letras, pai de Ana Beatriz (futura jornalista) e Ana Júlia (que segue os passos do pai na poesia).

Sua determinação em publicar o livro resenhado ao lado transformou-se numa saga que serve de exemplo a muitos. Foi trilhando caminho de pedras, espinhoso, cheio de labirintos e repleto de complexidades, que Paulo Gimenes conquistou o que almejava.Os patrocínios que obeteve de órgãos públicos e privados redundaram no primoroso livro, que passa a constar do catálogo de algumas bibliotecas públicas, o que representa grande ganho para quem estréia na literatura.


Serviço

Título: Poemas para cantar, músicas para ler
Autor: Paulo Gimenes e Amigos
Editora: FM Editorial
Quanto custa; R$20
Onde comprar: Sebo e Mania de Cultura; Sebo e Livraria Almanaque; Livraria e Papelaria Krepon; Krepon; 100% Vídeo Locadora.

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