O feitiço e os feiticeiros

Por: José Antonio Pereira

Durante o Regime Militar, a esquerda brasileira foi contida, banida, morta e exilada. Os que iam para o exílio, forçados ou fugidos, davam preferência às cidades de Nova York, Santiago do Chile ou Paris. Foi o caso de Fernando Henrique, José Serra e tantos outros. Para Cuba só iam os radicais, aqueles que estavam em busca de uma pós-graduação em guerrilha.

No período imediatamente anterior à redemocratização do país, surgia no ABC um grande líder operário: Luís Inácio da Silva. Lula foi cantado, decantado, projetado, adulado e idolatrado pela esquerda nacional. Todos o queriam para o seu grupo, o seu partido, as suas hostes. Até Jânio Quadros jogou confetes no líder sindical. Porém, Lula decidiu seguir o seu próprio caminho. Fundou o PT. Disputou e perdeu uma, duas, várias eleições. Cansou de perder e resolveu, mais uma vez, escolher o seu próprio caminho. Fez acordo com o PL, o Partido Liberal. Trouxe José Alencar da Silva, o mineiro de 4 costados e 7 fôlegos, e venceu as eleições. Tornou-se maior do que o seu próprio Partido. Foi reeleito e está prestes a ganhar mais uma.

O fenômeno Lula é um fato incontestável. Não há quem, de mediana cultura e sã consciência, não reconheça o sucesso do Presidente Lula. Ele é quase uma unanimidade: mais de 80% aprovam o seu governo. É um índice espetacular que, segundo consta, nunca foi alcançado por outro Presidente.

Dias atrás, comentando numa roda de amigos o fenômeno Lula, várias foram as explicações para o extraordinário desempenho do Presidente. Uns destacaram a sua origem humilde. Outros, a sua sintonia com as aspirações populares. Outros, mais hilários, a sua barba, a sua voz grossa, a sua falange decepada, a sua história sindical. Contudo, foi de meu amigo Renato a explicação mais interessante. Disse-nos ele com toda a convicção:

- Lula é brilhante e bem sucedido porque nunca se preocupou em fazer estudos profundos sobre ideologias utópicas, extravagantes ou incompreensíveis.

- Como assim?, perguntamos.

E Renato, mui sabiamente, discursou:

- Se ele tivesse estudado, a sua cabeça estaria tão cheia de teorias, metas e objetivos inatingíveis que o impediriam de ver as coisas claramente e decidir com rapidez e eficiência. Em suma, ele estaria tão patrulhado (por si mesmo e pela sua corte) que lhe faltaria a liberdade criadora para falar, para agir e para errar sem se importar com as opiniões dos companheiros e camaradas.

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