Um servidor público

Por: Mauro Ferreira

A última vez que estivemos juntos foi no enterro do meu pai, ele deve ter enganado a severa vigilância do prefeito para me levar sua amizade e conforto. No sábado, estava fazendo palavras cruzadas quando me lembrei dele, pois precisava do nome de um personagem de Hanna-Barbera, e a gente brincava que ele era o Bibo Filho e o irmão, muito parecido, era o Bobi pai. No domingo, ao abrir o Comércio, deparei-me com sua foto nos anúncios de falecimento, fiquei em choque.

Conheci o Luiz Garcia e Garcia nos anos 70. Ainda no primeiro mandato do prefeito Maurício Sandoval, o Garcia foi trabalhar conosco na secretaria de Planejamento da prefeitura como desenhista de arquitetura, profissão que exercia antes no escritório do engenheiro Nicésio Mesquita, onde tivemos os primeiros contatos. Eu e o Luiz Antonio, outro arquiteto que trabalhou comigo por muitos anos, nos divertíamos grafando um nome fictício para os desenhistas nas legendas dos projetos, todos de brincadeira, e incluímos o Garcia y Aicrag, por ter o sobrenome repetido. Era um sujeito metódico e exemplar, dedicado ao trabalho, um verdadeiro servidor público. Não havia tempo ruim para o Garcia, ele dava conta do serviço e, além de tudo, era um exímio desenhista.

Só havia uma chance de o Garcia abandonar a prancheta de desenho. Era quando o José Bittar, dono dos cinemas de rua de Franca que já não existem mais, aparecia nos corredores da prefeitura para fazer alguma coisa e ele logo corria para atendê-lo, pois no final ele sempre distribuía entradas de cortesia para os filmes, que o Garcia adorava, principalmente grátis. Ele não era um atleta, mas chegou a jogar futebol com a gente na chácara do meu pai e proporcionou cena antológica, digna da “Bola cheia, bola murcha” do Fantástico.

Com a pele muito branca, descendente de imigrantes espanhóis que povoaram a região da Santa Rita, na primeira vez que apareceu com calções foi logo apelidado de canela de vidro pelos gozadores de plantão, o Charles Depig foi o primeiro. Mas a melhor foi quando ele jogou no gol: num ataque dos adversários, o Charles gritou “sai, Garcia, sai”. Ele saiu, mas foi para fora do campo, atrás do gol, o atacante entrou com bola e tudo, pois não havia goleiro. Questionado pelos companheiros, ele respondeu: “mas vocês não gritaram para eu sair?”.

Sei que, em meio à tristeza, as lembranças dos funcionários da prefeitura, dos amigos e da viúva Maria Helena são as melhores possíveis. Mas eu quero destacar que, na sua discrição quase anônima, Garcia personificou o verdadeiro servidor público. Ao longo de quase trinta anos, os desenhos de Garcia permitiram construir centenas de obras da prefeitura que hoje estão a serviço da população. O arquiteto Vilanova Artigas, autor do projeto da FAUUSP, dizia que as palavras desenho e desígnio têm a mesma raiz. Os desígnios da vida levaram Garcia, mas não seus desenhos, que permanecerão por muito tempo a serviço do público.

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