Beagá

Por: José Antonio Pereira

Fui visitar a cidade com nome de paisagem Belo Horizonte, BH, Beagá.

Milton Nascimento, ao fechar um Festival Internacional de Corais, no domingo, 26 p.p., no Palácio da Liberdade, defronte à Praça da Liberdade, declarou que, para ele, Beagá (mineiros carinhosos a chamam assim) sempre foi a Capital da Cultura do país. Tendo a concordar com o cantor, a “voz de Deus” segundo Elis Regina. Cultura que se reflete na Gastronomia, como disse Chiachiri - “o mineiro é o único que amineirou a comida italiana”. Na Música, Literatura, Cinema, artesanatos. Muita cultura.

Visitei a Serra do Curral, vê-se ao longe, e o Parque das Mangabeiras, que resguarda o cerrado em muitos quilômetros quadrados. Burle Marx fez o paisagismo da Praça das Águas, na entrada. Vi mangabeiras em meio às muitas belas florinhas do cerrado. Muitos casais jovens passeiam, crianças mãos dadas com pais, deliciam-se com o que é seu. Cultura é isso também.

Estava em direção a Cordisburgo e tive uma experiência maravilhosa. Desci do ônibus em BH, vinda, sozinha, de Franca, às voltas com uma pesada mala, e um garoto de 18, 20 anos, sarará, tomou a minha mala e me conduziu à plataforma para pegar o ônibus para a cidade do coração de Rosa. Fiquei entre maravilhada e desconfiada com o seu gesto. Nem pude agradecer direito ao anjinho barroco, que sumiu na multidão, “até logo, senhora!”, me deixando enternecida por saber de gente, com tempo e interesse por uma desconhecida que nunca mais iria ver. Essa gente sem pressa, que não é indiferente ao que não lhe diz respeito aparentemente, na vidinha que leva a gente, ao invés de a gente levá-la.

Ando, ultimamente, observando a falta de olhares, de interesse de gentes para com as gentes. Senti que, lá, ainda existe esta “brasileirice” antiga: interação, vontade de conversar, aproximação ao semelhante, sem medo e desconfiança precavida, sem urgência. Faz bem ao coração dieta de afetos.

Comprei uma camiseta evocativa do Festival de Corais, que homenageava Milton Nascimento, com sua foto e a frase-verso de uma de suas músicas “o artista tem que ir onde o povo está”. Político deveria ter alma de artista. Ter a coragem, a devoção à verdade e o desejo de estar com o povo, não só nos retóricos discursos, caçando votos, poluindo a cidade de papel com fotos sorridentes, que o povo re-configura, com tinta vermelha.

Lembrei do mineiro arrojado, Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, o “Prefeito Furacão”, que convocou Oscar Niemeyer (não era ainda tão célebre), em 1940, para urbanizar a bacia de Pampulha (e realizar outros projetos arquitetônicos), com jardins planejados por Burle Marx em torno do lago, com azulejos pintados por Portinari na igreja da Pampulha. Portinari ainda não era o artista internacional de hoje. O Presidente do país, J.K., teve a ousadia de deslocar a capital, do Rio de Janeiro para o Planalto Central, construção adiada (prevista em 3 constituições antes do seu mandato) desde 1891. Brasília, hoje Patrimônio da Humanidade, dentro do seu Plano de Metas “50 anos em 5”. Não havia reeleição à época, JK foi o primeiro presidente civil a cumprir os 5 anos de mandato. Direitos políticos cassados em 1964, pela Ditadura Militar, JK morreu em 1976.

Cheguei a BH de avião, primeira vez. Pude apreciar a beleza panorâmica da Pampulha ao pousar no aeroporto Carlos Drummond de Andrade. Todo aeroporto deveria ter nome de poeta, como o Galeão Tom Jobim.

Quem é capaz de, ao voar, multiplicar sentimentos, viajar criando mundos alternativos possíveis, senão o destemido poeta? O que crê na beleza das suas visões navega, a bordo de seus porões cheios, em aeronave sonhada exata. Amanhã, domingo, 3 de outubro, procuro a barca de um Noé brasileiro, se possível bardo.

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