Noite

Por: Marco Antonio Soares

O sol, esmaecido pela tarde que o atenuava, aninhou seus raios, aquietou seu brilho, recolheu-se inteiro. A noite, que surgia mansamente, de repente abocanhou o céu, espargindo paixão e melancolia sobre os homens.

As retinas enamoradas colheram astros em meio à escuridão. Nas praças, as luzes dos postes piscaram várias vezes; até que, tristes, puseram-se em trabalho, incomodadas por um São Jorge valente, que nitidamente subjugava um dragão enorme.

Dando voltas ao redor da praça, os homens riam alto, contavam coragens, adestravam temores, governavam o mundo. Ao avistarem as moças que caminhavam em círculo contrário, sentiam o coração bater mais forte, esculpiam sorrisos, ofertando ternura sincera que não lhes é comum no dia-a-dia.

Os bancos de cimento, outrora vazios, abrigam agora casais que sussurram, que contemplam, que planejam, que brigam, que choram e que, enfim, entregam-se ao namoro travesso de suas idades. Os mais atrevidos beijam, os mais tímidos se deixam beijar.

Pouco a pouco, as pessoas se recolhem, fecham portas, cerram janelas, dão guarida ao silêncio. A noite se embriagaria de tristeza, não fosse um poeta, que abraçado ao seu violão, faz poemas sobre um novo amanhã. Embalada, a noite dorme, seduzida pelos acordes.

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