O “esse”

Por: Mauro Ferreira

Quando construiu a avenida Ismael Alonso, inaugurada em 1967, o prefeito Hélio Palermo autorizou que colocassem nas calçadas em pedra portuguesa um desenho estilizado que trazia nitidamente um HP, provavelmente o primeiro exemplo de merchandising político com dinheiro público na história da cidade. Uma bobagem, sem dúvida, que em nada melhorou a biografia e o importante papel político e administrativo desempenhado por Hélio na história da cidade. Hoje, se restar algum pedaço daquela calçada original imune às seguidas intervenções urbanísticas ocorridas no local, deveria ser tombada como forma de preservar o que não deve fazer um político.

Seu sucessor, Lancha Filho, outro prefeito fundamental para o desenvolvimento atual da cidade, que implementou o primeiro Plano Diretor da cidade e adquiriu a área do Distrito Industrial, também não resistiu ao apelo mercadológico. Quando construiu o Parque do Vale dos Bagres, autorizou a implantação de uma calçada também em pedras portuguesas que trazia o desenho de uma ... lancha. Infelizmente, foi tudo destruído, pouco restou do Parque, demonstrando que esta não é a melhor forma de ser lembrado no futuro.

A partir dali, tudo foi sendo tomado por essa ideia infeliz que a perpetuação do trabalho dos políticos está nas marcas físicas, em detrimento das leis, programas e instituições que consolidaram ao longo de seu mandato. Vejam o triste exemplo do dr. Joaquim, que negociou seguidamente seu continuísmo na presidência da Câmara até poder inaugurar um prédio, como se participar de uma cerimônia fosse a principal contribuição à cidade que deu em sua longeva carreira política, o que mostra a total inversão de valores que vivemos hoje. Só para lembrar, dr. Joaquim foi o vereador responsável pelo Código Municipal do Meio Ambiente, muito mais importante que um prédio e suas placas comemorativas.

Placas de bronze e de concreto, pintura de postes, abrigos de ônibus e pontes, desenhos estilizados nos prédios e veículos públicos, tudo vai se tornando objeto de merchandising político e não elementos de plasticidade urbanística que sirvam para melhorar a vida das pessoas.

O atual prefeito, além da pobreza visual e imagética do seu slogan, da burlesca mudança da bandeira da cidade, da colocação das cores do seu partido político nos uniformes das equipes de representação da cidade e nos poucos abrigos de ônibus existentes, acrescentou a mais nova e provavelmente a mais ridícula destas contribuições ao nosso folclore político, uns toscos “esses” desenhados com seixos rolados nas calçadas que mandou construir no Poliesportivo, impermeabilizando ainda mais um lugar que deveria ser verde, junto com um equipamento denominado sutilmente de “senta levanta” pela publicidade oficial. Ninguém merece esse retorno ao passado.

A não ser que o “esse” signifique outra coisa que não for Sidnei. Seria Sport? Scanteio? Na dúvida, meu amigo Antenor já sugeriu várias alternativas, a maioria impublicável neste horário por causa das crianças.

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