Em forma de oração

Por: Eny Miranda

Para Joana e Regina


“Se tu vens às quatro
da tarde, [...] desde as três
eu começarei a ser feliz!”
Antoine de Saint-Exupèry

O convite, recebi-o de uma amiga querida. .

Convite para o quê?

Ah, aí residem as maiores delícias da vida!

Uma Surpresa me esperava.

Sabia apenas que às quatro deveríamos estar lá.

Lá onde?

Outra delícia, outra Surpresa!

Um convite em branco para um acontecimento em branco, mas com hora marcada. Desde as três, portanto...

Seguimos por muitas ruas, dobramos várias esquinas.

Enfim, paramos diante de um muro bem cuidado, com dois portões. Lugar simpático, sossegado.

É aqui! Disse-me a amiga.

A primeira descoberta se deu quando um dos portões foi aberto: o rosto familiar, o sorriso inconfundível, a simpatia...

Era esta a surpresa! Uma tarde em companhia de duas amigas!

Não, não era.

A visão que me esperava excederia a todas as minhas expectativas.

Conduziram-me à sala de refeições. Abriu-se uma porta.

Eis a noiva! Ouvi.

Olhei.

Então, alguma coisa aconteceu em mim, no tempo, no espaço, no espaço-tempo...

No fundo do quintal, tranquila, ela nos aguardava. Coberta de flocos branquíssimos, arminho em pelagem de inverno, neve dos dezembros europeus que atravessam hemisférios e pousam nos galhos de uma árvore em primavera francana, lá estava.

E o perfume!

Mais uma vez, o tempo, o espaço, o espaço-tempo... onde vão?

Não há mais calendários. Não há distâncias. Não há o mensurável. Há o que paira na alma, acima de medidas, de pêndulos, de cartografias.

Como descrever o visto e o sentido?

Penetro surdamente no reino das palavras (e das essências). Pés descalços, alma nos olhos, coração nas mãos. Caminho, chego bem perto e contemplo o que consigo contemplar.

Não encontro nem uma só das mil faces secretas sob a face neutra das palavras a que Drummond se referia. Em verdade, não há palavras. Nada de poemas a serem escritos. Sequer uma letra, uma vogal.

Teria esquecido a chave?

Como contar o tempo sem tempo; como dizer o que me diz aquela árvore nevada, no fundo do quintal; e o que me inspira o carinho de corações sensíveis e amigos que me conduzem ao Belo, em uma tarde qualquer, hora marcada, para que a felicidade me encontre antes?

Deveria ajoelhar-me, mas corro, pego a câmera.

Uma câmera fotográfica poderia estampar, mesmo que palidamente, um sonho, ou uma realidade inefável?

Que cores, que música, que palavras a reproduziriam?

Uma jabuticabeira em flor!

Momento de prece no ritual da Vida. Oração sem palavras; canto sem notas.

Um véu branco a envolve, inteira.

Não, não é véu. São grinaldas, guirlandas de flocos macios, e delicados botões branquíssimos sobre eles, a adorná-la.

Braços erguidos, em silencioso gesto de louvor, puríssimo incenso evolando-se de todo o corpo, a árvore é, ela mesma, a oração.

Sim, há música no ar. Há sensível harmonia em cantos inaudíveis de promessa de vida, de beleza, de doçura. Há todas as cores do arco-íris reunidas no branco da aliança. Há poesia dispersa em mil faces de mil palavras nunca pronunciadas. Há, à minha frente, todos os poemas jamais escritos.

Pisemos descalças, dobremos os joelhos. Há Graças a serem dadas, porque Deus está ali.

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