Jogo de botão e a Francana

Por: José Antonio Pereira

A primeira vez em que entrei num estádio de futebol eu devia ter aí uns sete anos de idade. Levava-me segurando em minhas mãos meu primo Luizinho. De futebol mesmo eu só entendia as regras do jogo de botão, ou futebol de mesa. Quando éramos meninos, botão era botão mesmo, de abotoar, de osso, não de acrílico como os de hoje. O goleiro era uma caixa de fósforos com chumbo dentro para parar de pé. A bola arredondada vinha da cera de molde de dentista, que tirávamos às escondidas do consultório de meu pai. Quem armava as traves do gol era tio Sato, com arame grosso e filó.

Fazíamos campeonatos históricos. Irmãos e primos. Por isso senti muita diferença entre o futebol de mesa que eu praticava e o futebol de campo, verdadeiro.

Com certeza era domingo, três ou quatro horas da tarde, estádio Coronel Nhô Chico. Fomos de geral, assistir à partida Franca e Catanduvense. Alguns nomes de jogadores da Feiticeira daquela temporada ficaram em minha memória: Dudízio (goleiro), Elpídio (beque central), Rodrigues (centro-avante)... E só mais tarde o Pacau, o Bombig, e um que não me lembro bem do nome, só sei que ele, mais tarde, seria o dono do Café Globo, na Praça Barão.

O futebol me encantava.

O público torcedor, alguns fogos, as jogadas viris vistas por entre o alambrado, a fila para beber água, a trave de pau, o travessão arqueado na posição iminente de se partir ao meio; a bola de cobertão marrom, cheiro de éter no ar quando algum jogador se contundia em campo, as joelheiras goleiro usava joelheira, cotoveleira e não conhecia ainda as vantagens das atuais luvas. E, claro, o Sissiá lembra dele?

Os dribles entusiasmavam mais os meus olhos que as acrobacias de Tarzan nas selvas, entre cipós, reproduzidas na tela das matinês.

Continuei a jogar botão até pouco antes de me casar. Eu e meu irmão insistíamos em não cortar aquele último vínculo com a infância. Mas a idade adulta havia chegado já fazia tempo e, sem pedir licença, tornou-nos mais sérios que de costume, repletos de responsabilidades, até os cabelos, digo, meia calvície.

Guardo comigo meus times de botão. Cada um deles tem, pelo menos, uma pequena taça de campeão. São gloriosos times de botão, com história de vitórias.

Já a Francana... A última sensação foi aquele jogo contra o Araçatuba, no Lanchão, quando vencemos por dois a zero e galgamos a primeira divisão. Gols de Delém e Antenor, debaixo de uma abençoada chuva que molhava mais de quinze mil torcedores.

Daí vejo a Francana de hoje perde, perde, perde, empata e não sai do lugar, por mais que eu volte rouco do estádio.

Ah, se a Francana tivesse a metade do brio e da história dos meus times de botão; seríamos torcedores mais felizes que os do Fluminense, na ponta do Brasileirão Mais felizes que os corintianos e palmeirenses quando seus times alcançam uma vitória.

Falando nestes dois times paulistas, enviaram-me um e-mail perguntando qual a diferença entre o Corinthians e uma abóbora. A resposta veio logo em seguida: os dois nascem, crescem, amadurecem e aí vem um porco e come!

Não, não sou palmeirense, sou um pobre santista amargurado com as atitudes em campo e fora dele do Neymar. E aquele jogo no Nhô Chico terminou com o clássico placar de Francana 3 Catanduvense 1.

O que será preciso para a Francana se tornar um time competitivo?

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