Ao sabor das memórias do café

Por: Sônia Machiavelli

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“Às vezes fico pensando no quanto da vida é circunstancial. Um dia desses, eu vinha tranquilamente tecendo o meu destino quando, no meio de uma reunião sobre os preparativos para um concurso de café, fui interpelada sobre a possibilidade de escrever uns causos sobre a cafeicultura na região da Alta Mogiana.”

É com este parágrafo que Lucileida Mara de Castro começa a carta com que me apresenta seu “livrinho de memórias”. E conclui, avaliando-o: “Talvez um primeiro passo para que trabalho de maior fôlego, mais abrangente, com a colaboração de mais pessoas, seja realizado.”

Modesta, a escritora. O livro, colar de depoimentos sustentados pelo fio de seu discurso autoral, só é pequeno no formato de bolso, já que se torna grande pelo conteúdo original e pela ideia que o impregna, qual seja, resgatar histórias pessoais dos que dedicaram suas vidas a um propósito, cultivar café buscando produzir o melhor grão. Não é tão fácil conforme possa parecer. Cuidar de café não é o mesmo que plantar arroz ou feijão. Há um conjunto de técnicas, escolhas, pesquisas, elaborações e percepções para se chegar a níveis de qualidade inquestionável. A cafeicultura em todos os tempos pediu conhecimento, empenho, sacrifício e investimentos. Nem sempre as safras corresponderam ao que se esperava ansiosamente delas desde as floradas de setembro.

Milton Pucci, presidente da AMSC-Alta Mogiana Speciality Coffees, na apresentação do livro explica que “muitas histórias ficaram por contar”. Em Nota da escriba, a organizadora lembra que ele “nasce de forma despretensiosa, mas cheio de cumplicidade com aqueles que participaram de construção da tarefa gigantesca de transformar aquela região em um lugar conhecido no mundo inteiro como produtora de excelentes cafés”. Em outras linhas o leitor é informado de que a ideia brotou primeiro no espírito dinâmico da fazendeira Flávia Olivito Lancha Alves. Como todo conceito criativo, logo encontrou acolhimento em outras mentes sensíveis e foi se construindo com apoios diversos religados por interesse comum. Na orelha do livro, Flávia explica o segundo passo do projeto que redundou nesta obra bonita: “Propus um desafio à equipe: todos nós iríamos em busca de pessoas que tivessem algo a contar, ouviríamos suas histórias e a Lucileida escreveria os causos, transformando-os em um livro.” As respostas aos desafios chegaram logo e Lucileida passou a traduzir para uma linguagem própria os relatos ouvidos. Começou com um primeiro parágrafo marcado pela forma objetiva, concisa, lapidada, característica de um estilo que os leitores deste caderno já puderam atestar e irão reconhecer, pois Lucileida já publicou textos neste Nossas Letras.

“O rapaz que conta esta história é Marcus Falleiros, pentaneto do fazendeiro José Garcia Duarte, o Barão da Franca”. Com esta frase aparentemente simples, abre-se a série e fisga-se o leitor, remetendo-o ao passado e ao presente de uma só vez. Neste primeiro episódio, chamado Assim dizem do Barão da Franca, encontramos alguém que é figura histórica, cujo nome está presente em documentos no nosso museu, em praça central, na fachada de escola, na história oficial da cidade. E outro alguém com quem cruzamos na rua e faz parte do nosso cotidiano. Anuncia-se assim o que se vai encontrar nas páginas seguintes, onde o hoje e o ontem são a matéria prima com que se explica a história do café na nossa região.

Dos 21 relatos não sei definir qual seja o mais interessante: o da loucura do Major Claudiano? O do primeiro provador de café da região? O das histórias custosas de imigrantes italianos? Como não se comover com o mascate Melias? E que cena fantástica recupera Odilon Rodrigues Alves ao recordar o estrangeiro de fraque e luvas que retira suavemente do bolso, como um mágico de sua cartola, a colher de ouro com a qual irá experimentar o café a ser exportado...

Quando falo da literariedade de Lucileida é por trechos como o que transcrevo a seguir, onde ela comenta a fala da dona da Fazenda Conquista com acentos tão conotativos que por momentos pensamos estar lendo ficção: “A pergunta de Dona Luzia vem de um lugar profundo de sua memória, carregada de histórias e lembranças. A pergunta de Dona Luzia vem de trem, vem lentamente nos trilhos da Mogiana, aqueles mesmos que foram desenhados pelos caminhos do café.”

Tem um quê de “new journalism” este livro. Tem muito de saga cafeeira também. Tem um texto encantador de Luiz Cruz de Oliveira, à guisa de prefácio. Tem tudo para nos orgulhar enquanto francanos conscientes da importância do ciclo cafeeiro que explica uma fase expressiva da vida econômica da comunidade. Aliás, aquele não feneceu, ainda continua vivo, intenso, em filigranas de significações comoventes resgatadas ao sabor destes saberes telúricos e líricos.


PALAVRAS E FATOS

Lucileida Mara de Castro

Lucileida Mara de Castro é historiadora, pedagoga e mestra em Serviço Social pela Unesp de Franca. Atualmente é professora de História na Escola Pestallozzi. Também exerce funções de tutora do curso a distância da Universidade Luterana do Brasil, de diretora do Ave, palavra! Cursos e Treinamentos Ltda, de coordenadora de Projetos Sociais na empresa Labareda Agropecuária. É colaboradora da AMSC-Alta Mogiana Speciality Coffees.

Uma breve passada de olhos pelo seu currículo já nos mostra o perfil de pessoa que ama as palavras e se preocupa com os fatos. Mas se a formação humanística transparece nas suas atividades docentes e no engajamento em projetos sociais, é nos textos que percebemos a sua extraordinária competência para traduzir o que vê, ouve, sente.

Autora de frases assertivas, parecendo talhadas a cinzel de prata, já teve textos publicados neste Nossas Letras. Lucileida não só tem o que dizer sobre a vida e os humanos; ela sabe como fazê-lo de forma singular e apaixonante.

Ao aceitar a empreitada de costurar os relatos da gente dedicada ao café, permitiu a construção de um belo livro que tem tudo para se desdobrar em outros e erguer o painel de uma era econômica que conferiu à região de Franca fortuna e fama. A primeira pode ter-se esvaído ou tomado novas faces, pois muito se diz desde meados do século passado que o dinheiro tem mudado rapidamente de mãos. Mas a segunda se robustece, principalmente quando se publica um livro como Ao sabor das memórias do café. (SM)


Serviço
Título: Ao sabor das memórias do café
Organizadora: Lucileida Mara de Castro
Editora: Ribeirão Gráfica e Editora
Capa: Paulo Roberto Coelho Neto
Mais informações: www.amsc.com.br

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