Carta ao filho

Por: Claudia Filipin

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Rafa, eu bem me lembro daquela manhã de 21 de fevereiro de 1992, da maternidade fria e asséptica da cidadezinha do interior, das conversas dos médicos e enfermeiras, do estalar dos instrumentos e macas, da chuvinha fina que caía naquela ocasião...

Lembro também que quando você nasceu, escutei um chorinho acanhado (como quem pede desculpas) e não consigo deixar de lembrar dos olhos negros e dos belos e longos cílios apontando para mim feito armas.

Lembro que saí com você no colo, magrinho e meio ranzinza, mas só isso, e fui enfrentar o mundo repleta de medo de repetir os erros da minha própria mãe. Muito medo mesmo. Eu estava novamente grávida, mas grávida de pavor de não te fazer decente, correto, útil, honesto. Paúra de não te amar o suficiente.

Me recordo que você era bastante resignado, exigia pouco, mamava o que era o seu direito, e mesmo doente, nunca pedia, exigia, esperneava. Seu exercício era esperar.

Lembro do umbigo caindo, dos primeiros dentes, da primeira papa (que foi um grude de tanto legume), dos primeiros passos que nunca vinham, das primeiras palavras que vieram muito cedo e não seguiram uma ordem afetiva (Coca, Papai, Mamãe e Não). Me lembro dos meus primeiros erros... e de todos os que vieram depois. Foram muitos.

E depois vieram rinite, catapora e todas as pequenas cirurgias possíveis. E depois vieram o aparelho nos dentes e o tratamento para a acne, com o propósito de evitar as marcas no rosto, mas não o suficiente para eliminá-las da alma.

E depois vieram a escola, as aulas de inglês e contrabaixo, os amigos, as meninas, as saídas noturnas e todos os receios do mundo, tão seus quanto meus. Vieram seus primeiros desaforos, o cabulamento de aula, as pequenas traquinagens, o enfiar-se na frente de um PC para não precisar conversar coisas relevantes, um quase afogamento na praia de Juqhey, a primeira vez que soube que você havia bebido. Veio você lindo e essa beleza veio vindo devagar até se instalar completamente por dentro e por fora.

E tinha nossas sessões de cinema, você lembra? Eu, assistindo o filme por partes porque acabava cochilando. Você ficando bravo, exigindo minha companhia, querendo compartilhar comigo uma crítica.

Lembro dos sons que eu te apresentei e das músicas que você me obrigou a escutar. Ainda as ouço até hoje.

Lembro que sentia ciúmes dos seus melhores amigos e sentia ódio das meninas que às vezes te esnobavam.

Lembro da satisfação que eu tinha quando você era o melhor da classe, e isso acontecia com muita freqüência. Lembro que você tinha uma compreensão incomum do mundo. Nesses momentos eu quase pressentia uma vida melhor para você.

Só me esquecia dessa sensação de vitória quando me lembrava do longo caminho que você tinha que percorrer: da faculdade, do casamento, dos seus próprios filhos. Acabava engravidando de medo novamente.

Hoje, estou quase parindo o medo, e vou parir, nem que seja a fórceps. Você aí sozinho nessa cidade que é tão maior que a nossa, dirigindo a própria vida e com isso fazendo suas próprias barberagens. Ou mandando bem. Como estará se saindo?

Vejo que não há muita coisa que agora eu possa fazer. Você me visitando o que a grana permite, eu te visitando em sonhos, semanalmente. E só. Só?

Gostaria de saber se você se lembra de tudo que eu narrei. Se o exercício de lembrar e esquecer faz parte da tua rotina. Se você se lembra do quanto eu te amo e quantas vezes eu disse isso para você.

Como você está, filho? Como a vida está te tratando?

Mãe

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PS: por favor, não coloque o piercing e freqüente as aulas de Metodologia. De sexo seguro eu não preciso falar, o que eu quero te dizer é que você poderia tentar se machucar menos...

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