Plágio

Por: José Borges da Silva

Não é novidade que quem escreve corre risco de praticar plágio a cada linha. Por melhor intencionada que seja a pessoa, não tem jeito. Como já observou a Sônia Machiavelli, não há terreno virgem para a escrita. Eu, pelo menos, tenho sido vítima de estranhas situações de plágio. Na verdade, me considero vítima porque involuntariamente já pratiquei plágio. Explico: mais de uma vez terminei um texto, passei para alguém ler e ouvi o veredicto: “já vi isso em algum lugar...” Normalmente a pessoa se lembra de onde já viu a história e eu jogo o texto no lixo. A propósito, em julho passado enviei um texto para Nossas Letras e em seguida o dei a ler a um amigo. Era um miniconto que imaginei no ônibus, quando vinha de São Paulo para Franca. Após dia estafante, embarquei por volta das vinte horas de domingo, com previsão de chegar na madrugada de segunda-feira. E não conseguia dormir! Todo mundo roncando e eu no escuro, num banco do corredor do ônibus imaginando histórias. E saiu essa, em que um anjo aparece a um passageiro naquelas condições em que eu estava e propõe “cortar” aquela parte chata da viagem, de modo que ele acordaria na rodoviária. E daí, por que não negociar com aquela criatura também outras partes chatas da vida, como as segundas-feiras, as noites mal dormidas etc? A história vai longe e termina com o sujeito acordando, já na rodoviária, mas preocupado, porque, ao cortar as partes ruins da vida, percebe que não sobrou muita coisa... Assim que o amigo leu o texto observou: você viu o filme Click? Eu, que jamais ouvira falar do filme, fiquei de cabelos em pé. O amigo concluiu: a moral da história é exatamente esta! E eu acabara de enviar o texto! Nem tive coragem de me explicar com a Sônia, editora do Nossas Letras. Inclusive, aproveito para fazê-lo agora!

Também fui vítima de situação parecida, porém em posição contrária, com relação a um texto que escrevi com intenção de publicar na revista Veredas, no final dos anos 1970. A história se passava em frente ao bar do Seu Afonso, na Praça Nossa Senhora da Conceição, no início daquela década. Um sujeito beirando os trinta anos, parado, com um dos pés escorado na parede, uma mão sob o queixo e a outra segurando o cotovelo da que segurava o queixo, exibe um relógio automático reluzente, o fino da moda à época. Timidamente observava as adolescentes fofinhas tomando sorvete por ali. De repente uma delas olha em sua direção. Entusiasmado, ele troca o pé que escorava na parede, num trejeito extravagante. A menina olha de novo. Já com o coração aos pulos, ele quase não acredita. Mas resiste, suando, olhando disfarçadamente. E então, sem rodeios, ela se aproxima e tasca: “tio, que horas são, por favor?” A ideia era muito boa à época. Mas, o texto não foi escolhido pela comissão que editava a revista Veredas. Porém, alguns anos depois veio uma propaganda de refrigerante que praticamente repetia a cena, com uma mocinha desconcertando um sujeito madurão ao chamá-lo de tio, enquanto ele acreditava flertar com ela... Tenho vários textos nessas condições. Parece que não há como salvá-los. O jeito é ir contando a história deles!

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