Papai Noel

Por: Luiz Cruz de Oliveira

-Anda, pai... vem...

- Espera a jardineira parar, diacho.

Na lateral do ônibus existe frase em letras garrafais: Franca, terra do melhor café do mundo. Ele faz a curva devagarinho, e ninguém parece ouvir o bi-bi-bi inusitado de sua buzina.

- Anda, pai... vem...

- Espera, diacho.

Quando, enfim, o ônibus estaciona no ponto, crianças e adultos descem apressados, misturam-se ao povo que quase enche a Praça da Estação. A maioria dos presentes é criança. Os maiorzinhos tentam desvenciliar-se dos cuidados paternos enquanto os menorzinhos seguram com força a mão do pai, ou se aninham em colos.

Todas as crianças estão de olhos arregalados pela expectativa.

De repente, lá longe, atrás da Cotai, a Maria Fumaça grita sua chegada, e o apito do trem acende os corações infantis. Alguns meninos e meninas conseguem se desprender dos pais, tentam se aproximar da estação. Ocorre confusão grande.

Depois de um século, o trem para, despeja passageiros, engole passageiros, apita longamente, vai embora para Covas, para Guapuã, para o Indaiá, para Pedregulho...

Então aparece o Papai Noel na porta da Mogiana. O prefeito Onofre Sebastião Gosuen cumprimenta o visitante, tira retrato com o velhinho de barba branca, de roupas vermelhas. Poucos que chegaram mais cedo e conseguem um lugar lá na frente vêem os acontecimentos de perto.

Com dificuldade embarcam Papai Noel numa baratinha, e a custo abrem passagem no meio do povo. O carro começa a se movimentar lentamente e, lentamente, desce e sobe toda a Rua da Estação, até a Rua do Comércio. Só para diante da Casa Betarello.

Parece que, no cortejo, vão todas as crianças da cidade. Por isso, a Rua do Comércio fica entupida de gente. Algumas pessoas acompanham a bandinha uniformizada, cantam em voz alta:

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel...

..................................

- Que é isso, vô? Pirou? Cantando na rua... o Natal tá longe...

Chico Franco leva susto, mas o rapazote já vai longe, não percebe nem a surpresa nem o constrangimento do velho que, instintivamente leva a mão direita à aba do chapéu, na intenção de descobrir-se.

- Hein? O quê ?

A jovem balconista, à porta de estabelecimento onde existiu a Casa Cometa, estivera observando e ouvindo, curiosa, o velho que falava sozinho no meio da rua. Testemunha a irreverência do rapaz, condói-se, aproxima-se do homem de roupas esquisitas: terno branco, gravata, chapéu, bengala em que se apóia.

- Bom dia, senhor. Está tudo bem?

- Muito bom dia, jovenzinha.

- Está tudo bem?

- Está... está... Só estou meio desnorteado. Quem sabe a menina pode me auxiliar? Qual é a sua graça?

- Minha o quê?

- O seu nome.

- É Natália.

Natália, eu estou procurando a casa dos Irmãos Minervino.

- Nunca vi falar não. O senhor procura no ouro quarteirão... Nesse aqui não é não.

- A menina Rita sabia que a primeira vez que o Papai Noel veio a Franca foi em 1957?

- Nossa... não sabia não... eu nem era nascida... Desculpe, mas eu tenho que trabalhar.

A vendedora retorna à loja, fica espiando o homem que caminha pelo calçadão. Fala com seus botões.

-Credo! Parece doido... Falando em Papai Noel, procurando loja que não existe. Credo em cruz.

Persigna-se e começa a arrumar caixas nas prateleiras.

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