Portas e ciclos

Por: Ana Luísa Teixeira

A porta abre: saio, levo meu caderno de anotações, uma mala velha com adesivos e uma fita vermelha, para não deixar a franja cair. Fecho, tranco e digo: boa sorte, bom destino.

Deixei o meu lar, o meu emprego, os meus botões e a minha falta de monotonia. A vida, por mais quente e borbulhante que às vezes aparente ser, pode sempre ir a milhão em questão de 7 minutos. Assim, eu que já me julgava com as novidades sempre muito frescas, consegui torná-las indizíveis. Respirei, me desprendi do pouco que me prendia e me tranquei do lado de fora da vida que eu tinha começado.

Abri outra, uma que eu já havia fechado antes e que, por algum periodozinho, deixei na minha caixa de “esquecidos: não toque, não abra, não chegue perto” - todo ser, por mais pequenino ou grande que seja, tem de ter uma dessas, a caixa dos esquecidos. É necessário sempre poder ser esquecer ou usar a falsa borracha, pra poder seguir em frente. Foi o simples ato de colocar a caixa no colo, a olhar com medo que me despertou a sensação de coçar feridas e casquinhas. Assim, vi a chave que eu não pretendia mais usar. Há quem veja como uma nova porta, há quem veja como um retrocesso. Penso que nada é por acaso e muito menos um desperdício. A vida nos é dada pra ser gastada e aproveitada de modo inteligente. Cometer os mesmos vícios, pequenos e chatos, é um erro. Ter medo do novo é um erro. Mas voltar porque não deu certo, é justo. Voltei a viver o que eu, sem ou com escolha, tinha escolhido viver. Mas hoje volto com olhos maiores e visões apuradas.

Estou de volta pra casa, para a alegria de alguns que ficaram, para a tristeza de quem não veio, para o bem de quem sempre esteve perto. Resolvi, só dessa vez, escolher o que viver. Escolhi de olhos fechados como o quadro seria pintado - o que faz toda diferença afinal, quem faz a obra é o nosso coração. Colori de vermelho, rosa, anil e tons de laranja. Meu coração anda vibrando.

Decidi que você não entraria pra essa hora nova. Por muito tempo eu achei que você era o único que me prendia, o único que me daria um filho, o único que me fazia sorrir mesmo fazendo sofrer. Por anos, achei que você era o ponto cruz que me salvaria. Hoje (ontem), com você deitado e me beijando as costas, vi que o tempo correu. Você tem seu ciclo. E eu, escolhi abrir dentro do meu ciclo antigo e empoeirado algo mais brilhante.

Desculpe te deixar na sarjeta. Uma porta se fecha, outra porta se abre.

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