O passeio

Por: José Antonio Pereira

No final da década de 1950, muito do transporte urbano em Franca era feito por carroças puxadas por equinos. Muito comum encontrar pelas ruas asfaltadas (eram as mais novas) e de paralelepípedos montes de esterco fresco ou já seco. A meninada costumava sair com latas de vinte litros vazias, vassoura e pequena pá para recolher a porcaria. Não tinham a intenção nobre de limpar as ruas da cidade, não. Era encher uma lata e sair vendendo, de porta em porta, às donas de casa que usavam o esterco para adubar sua pequena horta caseira ou plantas em vasos e canteiros: roseiras, hibiscos, espada-de-são-jorge, samambaias, brotos de variada natureza, salsinha, cebolinha, funcho, erva-cidreira e alguma outra planta que pudesse acalmar os nervos ainda tão calmos de uma geração sem TV, celular, shopping e globalização.

Tão diferente o conceito de compra e armazenamento de alimentos doméstico. Eu me lembro de se derreter a banha de porco, deitar nela pedaços de carne comprada em açougues (vinha embrulhada em jornal velho), e aí deixá-la por muitos dias, conservada e saborosíssima num prato. O leite vinha de carrocinha, obviamente por tração animal. O vendedor, sem luvas ou avental, pegava de uma canequinha e enfiava a mão num desses colhedores de alumínio e dali tirava uma boa quantidade de leite para encher um litro ou uma vasilha da dona de casa. Leite in natura. E a meninada de olho no traseiro do animal para ver se saía alguma coisa que ajudasse a encher sua lata de vinte litros e render alguns centavos a mais.

De carrocinha vinham vários vendedores e outros interesses: o anão apanhador de lavagem, o vendedor de jabuticabas e outras frutas, o coletador de jornais velhos, o leiteiro como já vimos, o padeiro, o anunciador da chegada de um novo circo à cidade, doces em compotas, tamarindo, mangas, goiabas, carambolas... E a rua se enchendo de esterco.

Enquanto isso acontecia, o prefeito da cidade, Onofre Gosuen, se não me falha a memória, exortou a polícia a distinguir entre delinquência juvenil e brincadeiras juvenis. Isto por conta de certas brigas que estavam acontecendo entre a trinca do Cubatão e outras turmas da cidade. Junto a esses conflitos de jovens, ocorriam certas brincadeiras de rua que hoje soam ingênuas, inocentes, que completavam as tardes monótonas de uma cidade pacata que se dizia a terra que produzia o melhor café do mundo: fazer soar a campainha de uma casa e sair em desabalada corrida, só para ver a dona de casa ou mesmo o patrão chegar ao alpendre e olhar para os lados da rua e não ver ninguém, e depois entrar resmungando. Ou fazer batuque nos bancos de espera de madeira sonora da Pharmácia Orestes, no último quarteirão da Rua Dr. Júlio Cardoso. Ou jogar futebol tendo por bola uma lata barulhenta. Coisas assim.

Certa tarde, eu e meus amigos de infância saímos andando pelas ruas até encontrarmos um cavalo amarrado num poste. Observamos bem o local: o dono não se encontrava por perto. Já acostumados à situação, desamarramos o cavalo, demos um passeio nele e depois o deixamos no mesmo lugar. Suprema das delícias porque, a um só tempo, nos exigia coragem e nos levava a imaginar cenas só vistas nas telas das matinês, nos filmes de faroeste.

Já adulto, relatei este caso a um grupo de amigos. Foi quando um deles me perguntou:

- Você quer dizer que o professor doutor Everton de Paula já foi ladrão de cavalos?

Todos me olharam, contendo risos e surpresa, esperando pela resposta:

- Não respondi eu -, estou dizendo que já fui menino!

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