Tem razão quem grita mais alto?

Por: Paulo Rubens Gimenes

No mundo selvagem é através do volume de uivos, grunhidos que o animal demarca seu território, conquista fêmeas, defende sua comida e prole. Nossos antepassados, lá nas cavernas, também sobreviviam no grito; ou seja, fazer barulho, e barulho alto, era garantia de domínio, garantia de ser o dono da razão quando esta nem bem existia.

O tempo passou, descobrimos como usar os dedos como pinças, utilizar ferramentas, o fogo, a palavra, etc, etc, etc. Junto a essa evolução era de se esperar que os gritos, os sons altos e agressivos que antes traziam a vitória e consequente razão ao seu emissor fossem substituídos pela conversa, pela argumentação; enfim, pela inteligência que nos diferencia de outros animais. Era...

Infelizmente, em nosso cotidiano somos violentados por essa prática que já devia estar extinta e que teimosamente volta a assombrar quem espera desfrutar de um mínimo de civilização, de bom senso.

A volume com que certas pessoas e organizações defendem seus ideais, mais do que ensurdecer ouvidos alheios, cega-as, pois impedem que vejam o quanto agridem, o quanto incomodam os que não conjugam desses ideais; pior, pessoas que nem sequer interessam-se por eles.

Exemplos não faltam: um feliz torcedor que comemora a vitória de seu time de futebol às altas horas da noite, os simpatizantes do político que visita a cidade atrás de votos, a igreja que celebra o dia de sua padroeira iniciando a romaria na madrugada, a loja que promove uma liquidação, etc.

Além do total desrespeito ao próximo que não comunga com suas celebrações, os exemplos acima têm outro ponto em comum; comemoram com foguetório, muito foguetório, e com muito barulho retornam ao ritual pré-histórico em altos brados afirmando: “eu sou o melhor”, “é meu grupo que domina”.

Mais espaçada, porém não menos danosa e barulhenta, são as greves orquestradas por sindicatos; nos últimos dias estamos “ouvindo” a dos bancários. E dá-lhe foguetório.

Se a greve é uma saída garantida pela Constituição para que os fracos (os bancários) lutem contra os fortes (os banqueiros) para garantir seu direito ao que consideram justo, seja em salários, condições de trabalho, etc., quem garante o direito dos mais fracos (moradores do centro, trabalhadores de lojas) contra a ditadura do barulho imposta pelos mais fortes (os bancários!)? É o silêncio dos inocentes contra o barulho dos incoerentes.

Foi-se o tempo em que o direito à manifestação era calado sob as botas dos militares; existem hoje meios mais eficazes e inteligentes de fazer barulho, de conquistar reivindicações, através de inteligência e argumentação.

Você pode concordar ou não com o que escrevo, aliás, nem precisava lê-lo, se chegou até aqui foi uma decisão sua e você não corre o risco de que eu grite em seu ouvido meus posicionamentos pelas ruas de Franca. Isto se chama respeito.

Ademais, seja pela ineficiência, seja pela agressão a alheios, os únicos ganhadores nestas ocasiões são os fabricantes de fogos de artifício.

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