Policarpo Quaresma por Antunes Filho

Por: Sônia Machiavelli

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O dramaturgo Antunes Filho, do alto de sua impressionante juventude, disse ao jornalista Gustavo Fioratti, logo após a primeira apresentação de Policarpo Quaresma, que gosta “de fazer movimentos de coro”, pois não consegue “construir peça só com protagonista, tem de ter a aldeia junto.” E o coro, herança grega como o próprio teatro, do qual não se separa em suas origens, é elemento importante na adaptação para o palco do romance de Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma, em cartaz no majestoso Sesc/Pompeia, em São Paulo.

A ficção, nascida da pena muitas vezes torturada do escritor que, no começo do século XX, renovou o romance brasileiro com linguagem e temas singulares, ganhou o palco depois de enorme trabalheira, palavras do próprio Antunes. Quem leu o livro pode imaginar como deve ter sido custosa a reconfiguração para a cena. A saída foi transformar as longas descrições em diálogos, o que levou seis meses, e criar outros personagens, secundários mas importantes, para dinamizar a trama. Valeu a pena. O espetáculo instiga, incomoda e enternece nos dois níveis em que leva o espectador à reflexão. A solidão e o desamparo do anti-herói, um dos primeiros da literatura brasileira, realçam-se no movimento social de um Brasil que faz sua estreia no regime republicano.

Disse que o coro exerce papel importante na estrutura da peça porque é por ele que os fatos são costurados e comentados. As vozes representam o narrador onisciente que pontua o mundo psíquico de Policarpo e a sociedade que Quaresma frequenta. O Major Policarpo Quaresma é um carioca reacionário que recusa a República, defende a adoção do tupi como língua em lugar do português, acredita que o solo brasileiro é o mais fértil do mundo, posiciona-se como nacionalista obcecado e termina seus dias no hospício. Ao coro cabe ainda o papel de costurar as diversas histórias, conferindo-lhes unidade, apesar do caos psíquico em que o protagonista mergulha de forma irreversível. Com a habilidade que o distingue nas artes cênicas, Antunes usa-o agregado a muitos personagens para compor uma das cenas mais impactantes da peça, aquela em que uma multidão de loucos, vestidos com camisolões brancos, invade o palco para anunciar que Policarpo acaba de ser internado em um hospício.

E aqui abrimos parêntese para lembrar que o Policarpo de Antunes é também o Lima Barreto de Policarpo. Em muitos momentos nos perguntamos se estamos diante do criador ou de sua criatura, do personagem ou do artista, pois o tema da loucura, que perpassa a peça, é essência deles e ponto comum às obras. Um ano antes de publicar o romance que elevaria seu nome ao patamar da fama nas letras pátrias, o escritor/jornalista foi recolhido pela primeira vez a um hospício. O alcolismo e a vida desregrada foram determinantes nas suas três internações, em 1916, 1917, 1919, a última delas um ano antes de sua morte, ocorrida em 1922, ano em que a Semana de Arte Moderna escandalizava São Paulo e Monteiro Lobato ainda era lembrado por seu artigo escrito cinco anos antes, Paranóia ou mistificação? a respeito das telas modernistas de Anita Malfatti. O país retrógrado era irmão do revolucionário. Aliás, continua sendo, pois o Brasil são muitos.

Diante deste protagonista complexo que é Quaresma, há os que vêem um desequilibrado e inconsequente, perdido em sonhos grandiloquentes sustentados por ideais reacionários. E há os que enxergam um Quixote tupiniquim, oriundo de um meio social humilde e com pretensões a engrandecer o Brasil, façanha da qual sai completamente frustrado. A cena final, magnífica e pertubadora, alça no palco status de contemporaneidade pelas imagens e pelo monólogo, de um desencanto acachapante. A crítica que Lima Barreto fazia à corrupção no seio do poder no começo do século XX, é a mesma que hoje nos chega pela mídia independente à qual ainda temos acesso.

O espetáculo do grupo Macunaíma repercute no público que o aplaude de pé por minutos: ele vê espelhado no palco muitos dos problemas políticos que afligem o Brasil. As palmas são para os que não se intimidam e manifestam sua inquietação diante da realidade social. Bretch continua ocupando espaço importante na alma de Antunes Filho.


DEDICAÇÃO INTEGRAL

Antunes Filho

Aos 80 anos, com fôlego de 20, Antunes Filho nunca saiu da cena brasileira. Com 23 anos dirige a primeira peça, Week end, de Noel Coward. Com 28, funda sua própria companhia, o Pequeno Teatro de Comédia, PTC. Pouco depois dirige O diário de Anne Frank e ganha o primeiro prêmio expressivo da Associação Brasileira dos Críticos de Arte.

A primeira fase de sua carreira é marcada pelos cânones da corrente realista. Em 1960 vai à Itália e estagia com Giogio Strehler. Na volta dirige As feiticeiras de Salém, de Arthur Miller. Encerra o ciclo do PTC, vai para a Escola de Arte Dramática, a EAD. Trabalha com textos de Nelson Rodrigues e de Shakespeare. Mas nem tudo são flores. A montagem de Júlio César, em 1970, é vaidada por críticos e público. Recupera o prestígio com Black Out, tendo Eva Wilma como atriz. Entre 70 e 80 dirige alguns monólogos (Corpo a corpo, com Juca de Oliveira) e títulos de Nelson Rodrigues (Bonitinha mas ordinária). Seu ápice viria com Macunaíma, de Mário de Andrade, em 1978. O espetáculo percorreu o Brasil e foi encenado em mais de 20 países, recebendo todos os prêmios imagináveis. Sua atualidade o transformou num ícone.

Na década de 80 parte para a pesquisa e busca subsídios para criar uma escola de formação e grupo permanente. Cria o Centro de Pesquisa Teatral, até hoje celeiros de grandes artistas. Policarpo Quaresma é fruto dele. Na década seguinte dirige peças gregas de Eurípides. No momento prepara-se para adaptar O alienista, de Machado de Assis. Como se vê, a loucura e seu oposto, a lucidez, andam impactando o mestre.


Serviço
Título: Policarpo Quaresma
Direção: Antunes Filho
Onde: Teatro Bradesco
Endereço: Rua Turiassu, 2100, piso 3 - São Paulo
Telefone: (11) 3670-4100

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