Parteiras

Por: Mauro Ferreira

Dia desses, uma notícia dava conta que Rifaina estava ameaçada de não ter mais nenhum rifainense da gema, pois a falta de um hospital ou de médicos especialistas, não lembro bem, impedia isso, já que todas as mulheres da cidade tinham que se deslocar até Pedregulho para o parto.

Lembrei das estórias da minha mãe, que teve cinco filhos com parteiras. Naquele tempo, havia uma mulher famosa como parteira, a dona Maria Maffei, mas havia muitas, muitas outras. Médico e hospital eram coisa de gente rica, o que me leva a lembrar que tem gente que acha que o Brasil não melhorou em nada só porque Lula é o presidente, embora ele seja o melhor avaliado dos últimos tempos pela população.

Eu nasci de parto normal numa casa que fica defronte o portão principal do cemitério da Saudade, na praça Carlos Pacheco, lembrando-me do homem importante que trouxe para Franca a industrialização calçadista com sua fábrica Jaguar e que a vida é muita curta, o trajeto entre a casa que nasci e o cemitério é de segundos. Como disse Niemeyer, a vida é um sopro.

Meu irmão mais velho nasceu de um parto natural prematuro. Meu pai tinha assumido um cargo no Banco Hipotecário em Araguari. Minha mãe teve seu primeiro filho em casa, sem o apoio da sua própria mãe, que vivia aqui na Franca. A parteira, as amigas, todos que o viram tiveram certeza de que o menino não sobreviveria. Era tão pequeno que o colocaram numa caixa de sapatos com panos para esquentar. Depois, minha mãe fez uma espécie de incubadora doméstica com garrafas cheias de água quente, que colocava em torno do bebê chorão. Incubadoras só existiam em grandes hospitais. A mulher tinha que ficar quarenta dias de resguardo e sem lavar o cabelo. Minha mãe diz que lavou às escondidas, senão as críticas das vizinhas seriam impiedosas. E tinha que colocar a chamada camisinha pagã na criança. Minha avó só soube dois dias depois que o neto havia nascido e foi imediatamente para Araguari de Mogiana, uma longa viagem de trem, só chegou no terceiro dia para ajudar a filha.

Hoje, a maioria tem acesso aos serviços de saúde pública que, com todas suas mazelas, não pode se comparar com o vivido cinqüenta anos atrás. O acesso foi universalizado, houve um avanço extraordinário, inconcebível nos anos 1950. O saneamento básico era precário para a maioria. Vivia-se pouco, a média de vida era inferior a cinqüenta anos. Hoje, temos que pensar as cidades para os idosos, é importante pensar no transporte coletivo público acessível, nas calçadas, nos equipamentos culturais e de lazer. Logo a cidade estará livre do atual prefeito (que se lixa para tudo isso) para voltar a pensar seu futuro sustentado, estabelecendo metas de qualidade de vida que incluam os idosos e suas condições de locomoção e acesso à cidade como um direito de todos os cidadãos.

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