O Renascer de Marysville

Por: Celio Pezza

Em fevereiro de 2009 escrevi um artigo sobre a destruição da pequena vila de Marysville, que fica a 100 km da cidade de Melbourne, no sul da Austrália. O fogo começou na base da floresta e se alastrou por quilômetros devastando tudo na sua passagem. Foram praticamente dois meses até que finalmente conseguiram apagá-lo. Para se ter uma idéia, o incêndio consumiu 4.500 km de mata virgem, com um total de mais de 300 mortes. Só na região de Marysville, foram queimados 1.500 km de florestas, uma área equivalente a 40 km de cada lado. No meio desta floresta, a vila de Marysville, com seus 600 habitantes, foi praticamente toda destruída e nesta região foram encontrados perto de 150 corpos carbonizados. A velocidade do fogo chegou a 100 km por hora e quem estava no seu caminho não teve como escapar. Dezenas de turistas morreram dentro de seus veículos ao longo das estradas que cortam esta área e animais de todas as espécies foram encontrados carbonizados.

Agora, passado um ano da tragédia, tive a oportunidade de ir até Marysville e ver de perto o seu renascer. Foi exatamente no período da Páscoa, e pude entender a profundidade da palavra ‘renascer’. Não só os homens estão reerguendo suas casas, mas também a natureza mostra sua capacidade de renascimento de uma forma comovente. Você fica sem palavras ao ver milhares de troncos queimados, totalmente pretos, com uma casca de cinzas e pequenos ramos verdes brotando por todos os lados. É um espetáculo inesquecível do renascer da vida! É a prova mais eloqüente do poder da natureza e de que tudo é uma questão de ciclos. Depois de toda a devastação, vem o renascer! Depois da morte, vem a vida! A sensação ao ver e sentir o pulsar deste renascer é indescritível. Você vê não só com os olhos, mas também com o coração. Evidente que muitas árvores caíram, seus interiores foram todos destruídos e nestas não se vê uma folha nova sequer, mas ao lado, sempre temos outras com um broto verde a balançar. Qual o critério de escolha? Por que uma caiu e outra ao lado resistiu? Não sabemos. O importante é que somente um ano após o grande fogo, a natureza e o ser humano estão dando mostras de sua grandiosidade de reconstrução.

Durante esta visita tive o prazer de conhecer um mundialmente famoso escultor chamado Bruno Torf, que há mais de 25 anos escolheu Marysville como seu lar. Nos arredores da cidade ele mantém um sítio onde faz suas esculturas em terracota (argila cozida a 900´C) e as coloca no meio da mata, como parte integrante da paisagem. É um parque temático onde ele mostra seres mitológicos de todo o mundo em tamanho natural. São velhos magos, xamãs indígenas, índios, gnomos, fadas, deuses da mitologia celta e antigos povos originários da Austrália, Nova Zelândia e muitas outras regiões do mundo.

Você anda pelo bosque e de repente encontra estes seres ao seu lado, nas mais diversas posições. A realidade é tamanha que se dá a impressão de que se está em outro mundo e que é um visitante privilegiado e bem-vindo. A magia do local e dos personagens te contagia de tal forma, que o tempo deixa de existir e você parece entrar em outra dimensão. O fogo destruiu metade de todas as esculturas, mas as que restaram, estão sendo restauradas pelo artista. Como são de terracota, o fogo as deixou pretas, deformadas, com a superfície toda rugosa, mas passíveis de recuperação.

Bruno nos contou que escapou da morte ficando no centro do pequeno campo de futebol da vila, junto com dezenas de pessoas. Ficaram mais de 10 horas sob um calor intenso, enquanto o fogo passava ao redor do campo e destruía toda a vila. Este foi um dos raros locais que as pessoas tiveram para salvar suas vidas. Quem tentou sair de carro pela estrada, morreu queimado, pois o fogo se espalhou a uma velocidade de 100 Km/h e foi impossível escapar. Bruno contou que quando o resgate chegou, levou todos os sobreviventes para outra vila e lá ficaram por cerca de dois meses, período em que Marysville ficou fechada e só a polícia entrava na cidade para procurar e recolher todos os corpos queimados e investigar as causas do incêndio. Ainda hoje, um ano após a tragédia, ainda existem trechos de estrada fechados, pois são considerados como ‘cena de crime’. Apesar de muita gente afirmar que este incêndio teve uma origem criminosa, suas causas até hoje não foram esclarecidas e a conclusão oficial é de que foi um descuido fatal.

Quando Bruno retornou com os demais moradores, das 200 construções existentes na vila, somente 12 estavam de pé e foram raras as famílias que não perderam alguém na tragédia. Naquele ambiente caótico decidiram virar a página e trabalhar na reconstrução. Não faltou ajuda de todos os pontos da Austrália, e hoje a vila é um enorme canteiro de obras. Ao seu lado, a paisagem verde volta triunfante em locais considerados impossíveis de se nascer alguma coisa e encoraja o homem! A vila se transformou em uma só família de sobreviventes e a verdadeira solidariedade humana deu energia neste momento crítico de suas vidas. Eles olham para as árvores pretas e queimadas e vêem os arbustos nascendo. Eles entendem o sentido da ressurreição e levantam mais uma casa!

Marysville hoje é a testemunha viva do milagre da vida e da perseverança do ser humano. ‘Que pelo menos a tragédia de Marysville nos ajude a despertar e compreender que precisamos estar em estreita comunhão com a Natureza. Se isto acontecer, as mortes daquele dia não terão sido em vão e talvez seus espíritos possam descansar em paz!’

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