Orelha

Por: José Antonio Pereira

110218

Na pequena Cabuaçu do Sul, cidadezinha localizada no sopé de uma montanha nestes rincões do interior do Brasil, não há quem não conhecia a orelha esquerda de frei Carlúcio. Depois do noviciado, o pobre pároco observou, com desalento, que sua orelha esquerda começou a crescer sem que a direita a acompanhasse. De tal modo foi o crescimento progressivo que, aos sessenta e oito anos, a orelha mais se parecia a uma pera rosada pendente ao lado do rosto, com a extremidade abaixo da mandíbula.

Carlúcio sempre se atormentou com sua orelha. É claro que ainda hoje, como quase todos se acostumaram com sua aparência, o pobre frei aparenta estar impassível. Talvez por uma razão: não queria que chegasse ao conhecimento alheio que um homem voltado às coisas do espírito se aborrecia por causa de um apêndice físico.

Mas no íntimo se aborrecia. Por duas razões: a primeira era de ordem prática. A orelha, demasiado comprida, causava-lhe embaraço. Nos sermões que pregava durante as missas, fazia-o meio que de perfil, como a querer que os fiéis apenas lhe notassem a orelha normal. A segunda, era por causa do amor próprio ferido. Daí, tentou reerguer a orelha, digo, o orgulho machucado por meio da prática de alguma ação ou submetendo-se a esta ou aquela operação.

O que primeiro lhe ocorreu, foi uma forma de fazer com que a comprida orelha parecesse mais curta. Quantas vezes, diante do espelho, projetando sua imagem de ângulos diferentes, pacientemente pesquisava a melhor aparência. Acresça-se a isto que Carlúcio se preocupava, a toda hora, com a orelha dos outros. Não cansava de observar a face dos fiéis, na esperança de descobrir alguém que tivesse uma orelha como a sua, qualquer pessoa que fosse, para se sentir tranquilizado com a descoberta. O frei não via a pessoa, mas a orelha. Como última tentativa, chegou a pensar em encontrar algum conforto íntimo descobrindo no Velho e Novo Testamento alguma personagem com a mesma orelha que a sua. Em vão.

E ela continuava a crescer. Já estava com a parte mole batendo no ombro esquerdo.

Certa primavera, o coroinha que havia ido com a família à cidade grande, trouxe uma receita para encurtar orelha, passada por um médico amigo. Como de costume, frei Carlúcio assumiu ares de quem não se apoquentava com a orelha, e de propósito deixou de manifestar interesse na imediata aplicação do novo processo. Mas diante da insistência do ajudante ritualístico, resolveu acatar a sugestão.

A receita, muito simples, mandava que a orelha fosse aquecida em água fervente e em seguida pisada por alguém. Sem perda de tempo, o ajudante trouxe uma panela de água, tão quente que nem se podia nela enfiar um dedo. E como havia o perigo de o vapor queimar o rosto, caso a orelha fosse ali introduzida, tampou-se a panela com uma toalha, depois de abrir nela um buraco. Ficando-se com a orelha, tão só, mergulhada na água aquecida, não se tinha nenhum sofrimento. Depois de algum tempo, disse-lhe o coroinha:

- Já deve estar refogada...

Frei Carlúcio torceu os lábios em riso contrafeito. É que pensou ninguém que ouvisse essa frase acharia que se falava de orelha. Esta, guisada pela água fervente, coçava como se houve sido picada por mil pernilongos. Tendo Carlúcio retirado a orelha do orifício, o ajudante passou a pisoteá-la com vontade.

- Não está doendo?

- Não, não está.

E o frei não mentia, já que pisoteada onde sentia comichão, por assim dizer chegava a sentir prazer.

Esta operação foi ainda realizada por quatro, cinco vezes mais. Até que um dia, frei Carlúcio notou que a orelha havia realmente diminuído. Não é que o diabo da receita estava dando certo?

Mas aí sucedeu o inesperado. Frei Carlúcio descobriu um fato insólito. Um fiel, após ser o último a se confessar, viu o religioso e passou a lhe observar a orelha diminuída. E achou graça. Melhor dizendo, deu uma sonora gargalhada que retumbou por entre as colunas da igreja. Interessante isto: ninguém há que não se condoa da desgraça alheia. Sucede que quando o coitado consegue de algum modo desvencilhar-se da infelicidade, então a gente passa a achar que, afinal, tudo foi pouco. Exagerando um pouquinho, pode-se ver que até chegamos a desejar que essa pessoa experimentasse, outra vez, a mesma desgraça. Daí que todos que viam a orelha diminuída de frei Carlúcio desatavam a rir, abertamente.

Novamente o mau humor do religioso foi crescendo a cada dia que passava.

Passaram-se os dias.

Certa manhã, Carlúcio levou a mão precipitadamente à orelha. E o que sentiu ao contato não era mais a curta orelha da noite anterior, mas a antiga, comprida, de uns quinze centímetros. Outra constatação: as pessoas agora deixaram de rir quando descobriram a desgraça de volta à face de frei Carlúcio.

- Agora ninguém mais voltará a rir assim disse intimamente o religioso, numa espécie de murmúrio silencioso, a balançar a comprida orelha à brisa da manhã.

Dizem que, a partir de então, as homilias foram tocantes.

(Adaptação de um texto de Ryunosuke Akutagawa)

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