Hora do café

Por: Ana Luísa Teixeira

Sento na cadeira e entre sua madeira e a minha pele não há nada. Sento-me com pouca roupa e isso indiretamente faz com que sinta arrepios por conta do vento que bate levemente sobre as coxas. As janelas estão como sempre abertas e meu vizinho sabe de cor as minhas roupas. Seu voyeur maldito!

Pego meu café, “Dolce de Leche Latte” pra ser mais exata, deixo que caia vagarosamente pela língua. Se Deus não me deu muitos prazeres grandes, ele ao menos me permitiu que tivesse pequenos: café, meu cheiro, cigarro, cabelos ao vento, etcetera, etcetera.

Está frio e prefiro me fechar no 3x4 e ficar à espera de que algo caia dos céus. Juro, olho a janela de 3 em 3 minutos pra ver se coisas absurdas me caem. Ouço batidas, olho desesperadamente - há medo nisso. É só o vento.

Desligo essa máquina. Me cubro com o cobertor mais macio que há no guarda-roupa, ponho meu copo de água ao lado da cama e apago a luz. Há uma luz leve que entra por debaixo da porta e ainda há luz da noite que deita aqui com jeito de madrugada pomposa.

No meu quarto sono você entra. Escalou 11 andares e entrou pela frestinha que deixei. Faz silêncio e questão de me deixar dormindo. Descobre apenas o ombro direito e vê as sardas de que diz gostar tanto. Faz cafuné na parte de trás do meu cabelo porque sabe que esse é o meu ponto fraco e começa a contar coisas. Primeiro me pede desculpas por não me acordar mas já é tarde e você sabe o quanto fico irritada quando me acordam no meio de um sono delicioso. Me conta que adora quando faço cara de preguiça, quando fico distraída fumando. Seu maior prazer é me observar, você fala rindo de si e tem vergonha disso.

‘Aquele dia, eu esperei horas do outro lado da rua só pra dizer que queria que você voltasse com o seu perfume. Você saiu com os seus óculos e nem me viu sentado na sarjeta. Ana, vi que você não precisava de mim.’. Você olha mais uma vez, dá um suspiro e diz que não vai mais voltar. ‘Me desculpe’.

Sai, deixa um lado da cama quente, abre a janela com cuidado. Ouço tudo, sinto tudo mas prefiro ficar em silêncio e, dessa vez, te deixar falar.

Caíram algumas penas negras, há lágrimas em prata perto do meu travesseiro. Você é como um devaneio.

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