Atlantis

Por: Mauro Ferreira

Quem foi jovem nos anos 60 e 70 do século passado certamente ainda possui na memória RAM do seu computador cerebral o início de uma domingueira “brincadeira dançante” na AEC. Criado por Maurício (tecladista) e Cassola (crooner) no final dos anos 60, o conjunto Atlantis (originalmente The Devils), foi um dos protagonistas principais daqueles tempos. Tinha ainda o cabeludo Serginho na bateria, Nilson na guitarra-base e o Xerxes no contrabaixo. Os primeiros acordes do Atlantis para iniciar o arrasta-pé eram sempre da música que dava nome ao grupo, composta pelo estranho roqueiro escocês Donovan Leitch.

Sua introdução era uma espécie de chamamento ao bate-coxa. As pessoas estavam mais ou menos quietas, conversando relativamente baixo, muitas ainda estavam no térreo do prédio ou subindo a famosa rampa espelhada da AEC aguardando o início da festa. Quando a guitarra do Nilson começava a gemer, havia um frenesi no salão, alguns casais mais afoitos já corriam empolgados para a pista de dança como se o mundo fosse acabar naquelas noites mágicas.

Até hoje, ainda guardo comigo um compacto simples em vinil com a simpática canção de Donovan editado pela CBS, a famosa Atlantis no lado A e a desconhecida To Susan in the west coast waiting no lado B, que ele compôs para a namorada. Os acordes iniciais da gravação original (não me lembro mais se o grupo declamava também, acho que não), eram seguidos por uma declamação poética que, em tradução livre, dizia que o antediluviano continente da Atlântida era uma ilha no oceano habitada por um povo formado por poetas, físicos, fazendeiros, cientistas, mágicos, considerados deuses, e então entrava o refrão “Way down below the ocean where I wanna be she may be”, que o crooner do grupo, o Cassola, mandava ver no gogó.

Donovan, o patrono dos músicos francanos Maurício e Cassola, era amigo dos Beatles e dos Rolling Stones, freqüentava sessões de gravação dos roqueiros mais importantes da época, compunha e cantava suas músicas, mas teve muitos problemas em sua carreira que não deslanchou, embora até hoje esteja na ativa. Começou com uma pitada de música celta e folclórica, mas enveredou pelo velho e bom rock and roll, no ambiente festivo e psicodélico da swinging London dos anos 60.

O Atlantis acabou em 1974, seus integrantes se dispersaram (alguns prosseguiram por algum tempo no conjunto Mirage), o Maurício (que foi meu colega de escola) virou empresário e o Cassola bancário. A AEC, como escreveu alguém, vai ser “modernizada” pela falta de cultura e de prioridade de uma cidade sem memória, os combogós de tijolo vazado que lhe davam ventilação devem ser substituídos por vidro. Como dizia o sábio Nelson Pucci quando via obras do tipo, vai virar “arquitetura de churrascaria”.

Mas podem ter certeza, os primeiros acordes de Atlantis ainda continuam ressoando naquelas paredes.

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