Pundonor delira

Por: Antonio Coutinho

A engenharia afirma que as casas precisam de reforma 15 anos depois de construídas. Os tijolos, o madeiramento, as telhas, a pintura desgastam-se de várias maneiras: no sol, na chuva, na seca, no mormaço, no acomodamento do terreno aterrado, na qualidade dos pedreiros mineiros, dos tijolos baianos.

(As plantas na casa,
alegres e bonitas pelo bom trato,
resistem a seca prolongada
e quase nada a certos olhares.)

Tudo desgasta, pondera, desculpa-se e sai apressado o comerciante de materiais de construção, com 30 anos de experiência no ramo, ao ser questionado por estudantes de cálculo sobre a durabilidade dos materiais disponíveis no mercado. Demonstra estar mais interessado na arquitetura, visto o cabelo recém-pintado e os boatos da morada trocada.

A lojista de calcinhas e o seu marido, fabricante de calçados, de 45 e 60 anos de idade, pobres no passado e admirados pela mudança de condução, habitação, lazer e alimentação, asseguram que nenhuma casa cai depois de conquistada. Basta pegar o dinheiro da reforma na financeira da sociedade familiar.

Casas têm rachaduras em qualquer tempo, até na inauguração, assegura o psicanalista. Aponta o eletrocardiograma na parede da sala onde consulta, enfia seu dedo mindinho de 75 anos numa abertura de quina, se questiona (“Por que me construi em tantos equívocos?”), prossegue nas perguntas, perde-se na busca, olhado calmamente pelo paciente esquecido.

Casas desgastam-se ou conservam-se com o humor dos habitantes, fala Maria Isaac, convicta, apoiada nas rachaduras de 90 anos de vida, dez como palestina, existida em divisas, nove na Argentina, quinze no Uruguai, vinte no Paraguai e os demais em Goiás.

Pundonor, recém-falecido aos 105 anos pela incapacidade de entender que nessa idade devia cortar o tabaco e a cachaça ao menos pela metade, testamentou: “Se um dia a casa cai, ela que se foda, havendo outra moradia.” Seus filhos não entenderam essa estranha observação no fim do documento, feito para a divisão dos compartimentos necessitados de reformas, maiores do que as indicadas pela engenharia.

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