O cara da minha frente

Por: José Antonio Pereira

Esta era informatizada carrega um problema não resolvido: invariavelmente sempre tem alguém entre mim e o lugar a que pretendo chegar. Às vezes, isto causa outro problema de efeito contrário: tudo anda tão depressa que leva o dobro do tempo. Dá para entender? Eu explico. Os jatos atravessam a distância entre continentes em menos tempo do que aquele gasto depois quando se fica na fila, atrás do cara na minha frente, para vistar o passaporte, apanhar a bagagem na esteira rolante, tomar o táxi, descobrir o caminho para o hotel, desvencilhar-se do trânsito infernal, acomodar-se e fazer os primeiros contatos. Tudo resumido numa famosa lei ainda não promulgada: uma fila nunca é mais rápida do que o indivíduo à sua frente. Sei disso porque sou exatamente o homem de trás.

Chego correndo ao banco. Alguém está enfiado na boca do caixa, na minha frente. Sinto um friozinho na barriga É ELE, o cara da minha frente. Só ele, não há mais ninguém na fila. Está ali não para descontar um simples cheque ou efetuar um simples depósito. Ah, a coisa é bem mais complicada! Carrega ele um catatau de papéis de variadas cores, tamanho e demora. Conheço bem o tipo: ou é um office-boy de uma firma qualquer ou aquela figura de pastinha preta, entupida de documentos. Outro dia esperei 37 minutos enquanto o caixa atendia o cara da minha frente. O funcionário do banco recebeu os cheques, descontou alguns, depositou outros, limpou os óculos, fez depósito na caderneta de poupança, espirrou, limpou o nariz, atendeu o telefone, prestou auxílio ao caixa do lado, realizou um doc, comentou sobre o tempo e e efeito estufa sobre o planeta, tudo devidamente carimbado e assinado. Quando chegou a minha vez me vi diante de um letreiro de acrílico, bem claro: DIRIJA-SE AO CAIXA DO LADO, POR FAVOR. Nem preciso dizer que no caixa ao lado havia um cara na minha frente.

É ainda mais desanimador quando alguém está na minha frente no tráfego urbano, impedindo-me a passagem. É incrível: o cara da frente sempre anda muito devagar, já o de trás é nervoso e tem muita pressa. Esta é outra lei pétrea. Se estou procurando vaga para estacionar, o meu velho conhecido se encaixa na única brecha disponível. Por sorte, vejo a esposa, acho, do camaradinha saindo da loja, e paro bem deste lado onde ele se encontra estacionado, bloqueando assim a fila de carros que vem atrás de mim, buzinando desesperadamente como belzebu nos infernos. O cara estacionado liga o carro, engata uma ré para manobra, mas logo é avisado pela esposa de que ela se esqueceu de comprar uma fitinha cor-de-rosa para estampar o babado do vestidinho da netinha. Ali, na Melica. O motor é desligado. Nesta altura, os motoristas atrás de mim estão enlouquecidos. Tenho de rodear novamente o quarteirão e voltar ao mesmo lugar. Pronto, a vaga está ali, toda oferecida a mim. Mas o cara que está na minha frente, outro sujeito, acaba de estacionar o seu carro nela.

Uma coisa que o cara da minha frente nunca tem é pressa. Se estou esperando que ele desocupe uma mesa no restaurante, ele gasta um tempo enorme com a sobremesa, olhando vagarosamente a todos em volta. Fico ali perto, desviando-me de garçons com bandejas cheias, e meu incentivo em voz audível: “isso, isso mesmo, engula logo. Que tal um último gole de café! Aí, muito bem. Mais um golezinho de água! A-a-a-ah!”

Parece que o sigo por toda parte: na fila do supermercado, no cinema do shopping, nos poucos espetáculos de teatro que Franca nos presenteia, na sala de espera do médico ou dentista, na entrada para a partida de futebol. Não consigo passar a sua frente, numa liquidação de roupas, mas ele conseguiu atrair a atenção da balconista para a última camisa do meu tamanho que restava.

Por uma série de causas existencialistas, deixei de ir à missa. Mas fico me imaginando na fila para a comunhão: com certeza ele estaria na minha frente e, antes de receber a hóstia, iria se persignar todo e talvez rezar um terço inteiro... Com a benevolência do celebrante. Na minha vez, o coroinha com certeza teria que sair em disparada rumo à sacristia em busca de mais hóstias.

Mas algum dia hei de ser o primeiro, e se quaisquer outros aparecerem depois de mim, que esperem de pé até eu acabar o que tinha de fazer. Va-ga-ro-sa-men-te!

Muito bem, agora me veio um pensamento intrigante: será que eu mesmo não tenho sido o cara da frente para algumas pessoas?

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