O beco do Bachega

Por: José Antonio Pereira

Do lado esquerdo de quem subisse a Rua General Teles em direção ao centro da cidade, entre as ruas Homero Alves e Augusto Marques, ficava (e ainda fica) o Beco do Bachega, ruela sem saída habitada por imigrantes italianos e espanhóis. Ali moravam os Capel, os Ferro, os Victorelli, os Andreoli e, naturalmente, os Bachega. O velho Hércules Bachega residia no fundo do beco, junto à sua fábrica de doces. Era um homem gordo, de voz forte e gestos bruscos. Sua esposa, ao contrário, meiga e delicada, tinha a fala mansa e lindos olhos verdes. Ao lado do Bachegão, pai do internacional Dr. Geraldo Bachega, moravam sua filha Fiuca e o seu genro José Rosa. José Rosa vendia os doces do sogro. No começo da semana ele lotava um furgãozinho cinza-esverdeado e saía vendendo e entregando os pés-de-moleque, os doces de leite e demais guloseimas produzidos pela fábrica. Voltava, geralmente, nos finais de semana. Era um homem baixinho, moreno, gordinho e afável. Morreu cedo. Morreu de um ataque cardíaco.

Quase em frente ao Zé Rosa, estava a casa de dona Concheta Andreolli. Dona Concheta irradiava sinceridade na sua maneira de falar, de sorrir, de olhar. Seus olhos eram brilhantes, claros, ternos e puros. Barulhenta, falava alto e gesticulava muito. Caminhava falando e, às vezes, brigando com sua filha Filomena. Quando me via, abraçava-me e beijava-me carinhosamente. Ainda me lembro de sua fisionomia expressiva, do seu olhar generoso, protetor e amigo.

O beco não tinha asfalto. Por ele podíamos andar descalços sem o desconforto do sol ardente sobre as ruas pavimentadas. Nele riscávamos os triângulos e furávamos as bilocas para o jogo de bolinhas de vidro. Nele jogávamos bola de borracha ou de cubertão até que algum morador mais irritado pusesse fim ao prélio. Nele corríamos de um lado para o outro. Corríamos de nós mesmos. Porém, certa vez, corremos do perigo iminente. Mexemos com um doido que passava pela rua e ele nos atacou. Escondemo-nos no porão da casa do Bachega e o doido começou a forçar a porta. Foi aí que apareceu a Nega do Bachega com um machado na mão e fez o alucinado voltar ao seu juízo. Diziam que a Nega do Bachega era uma índia capturada lá pelas bandas do Mato Grosso. Tinha cor de ferrugem, a fala incompreensível, o cabelo enrolado e trançado. Protegia os Bacheguinhas e, no caso, os seus amigos.

Marçal Victorelli e dona Emília, sua esposa, residiam na entrada do beco. Sorridente, alegre e comunicativo, Marçal, pai de Luís, o serralheiro, tocava trombone na Banda Municipal. Também, na boca do beco morava Antônio Capel e dona Maria. Cabeça branquinha, dentição perfeita, pequeno e redondinho, o vovô Capel (assim eu o chamava) costumava sentar-se num banco de pedra encostado no muro de sua casa. Sério, autoritário , espantava os meninos que se amontoavam no banco, punha ordem no beco e ali ficava até o sereno chegar. O Beco, que era do Bachega, foi oficialmente batizado de Antônio Capel.

Se, por um lado, não mais consigo ver o presente, por outro, enxergo nitidamente o passado e posso vislumbrar alguma coisa do futuro. Quando passo pelo Beco do Bachega, ainda vejo claramente o velho Capel sentado no seu banco de pedra com um gorrinho na cabeça e um pulôver protetor, tomando a fresca, guardando o beco e respondendo aos cumprimentos:

-Como está usted, hombre!

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