Aborto

Por: Marco Antonio Soares

Um dia, um homem de branco veio em minha direção, fez brincadeiras, pôs metal frio em meu peito, examinou-me bem, pendurou alguns garranchos em folha alva. Dentro de poucos dias, o ar corria livre em meus pulmões. Quis muito ser como aquele moço. Contei ao pai, que, enrugando a testa, sentou-se ao meu lado, debulhou com sorriso triste uma verdade que não lhe afagava o coração. Meus nove graus de miopia foram explicados aos meus ouvidos, uma vez que meus olhos já conheciam aquela história de cor. Não pude ser médico.

Não faz muito tempo, escrevi algo julgando ser versos, amontoei-os, pensando criar estrofes, publiquei-os com intenção de homenagear quem ainda amo. Dias depois, meu professor, Chico Franco, pediu que eu estudasse outro gênero de texto, quem sabe crônicas. Poeta eu jamais seria, a estrutura era ruim, não havia ritmo, percebia-se a ausência de talento. Enfim, disse que poeta nasce poeta. Não questionei. Fui para casa, rasguei alguns rascunhos, tristeza tamanha inspirou-me, enxotei-a, tive vergonha, provavelmente, a mulher que homenageara rira de mim. Embrulhei-me em grossa casca, alguns sentimentos se atrofiaram, fiz-me homem prático.

Um dia, vi um homem ensinando, sua voz soava forte para que todos ouvissem, suas palavras eram simples para que todos entendessem, e seus modos alegres faziam-se severamente exigentes. As pessoas ao seu redor pareciam felizes. Desejei ser professor. Contei ao meu pai, que sério, semeou vantagens e desvantagens daquela profissão. Por fim, explicou-me que havia várias almas a serem tratadas e que uma aula bem dada servia como oração.

Não faz muito tempo, um grupo de amigos ensinou-me o significados das palavras ternura, solidariedade e gratidão. Grossa casca de insensibilidade se desfez como neblina ao vento. Arqueei a alma, dei giro à bateia da vida. Percebi pedacinhos de alegrias, de saudades, de amores. Redigi crônicas que foram engolidas por livros e jornais.

Por longo tempo, os abortos, que a vida me proporcionou, deixaram meu espírito sem enfeites, mas eles me ensinaram também que o caminho entre as lágrimas e o sorriso é por demais curto.

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