Casamento com imprevistos

Por: Antonio Coutinho

-Pedro Paulo, aceita Ana Maria como legítima esposa?

- ...

- Pedro Paulo, aceita Ana Maria...

- sim.

- Ana Maria, aceita Pedro Paulo como legítimo esposo?

- SIM!

Pedro Paulo enfia a mão direita no bolso esquerdo do terno, não encontra as alianças, há um precipício, usa o antebraço para chegar ao fim do buraco. O bolso é fundo e largo nesse modelo imprevisto, experimentado na confecção e aceito pelo caimento, sem ter visto os complementos, cópia do usado por Máicon Jordan na assinatura do primeiro divórcio, arquivado na internet.

(“Bom gosto não tem data, tamanho, ocasião”, defende-se o alfaiate com a queixa feita por familiares do noivo, depois do vexame.)

Não estivesse ansioso, perturbado ou excessivamente calmo o que dá no mesmo em certas circunstâncias -, Pedro Paulo apalparia os dois bolsos do terno inspirado no alado de Chicago. Onde houvesse saliência estaria o que procurava.

Não enfiaria a mão direita e o antebraço no bolso esquerdo, encurvando-se de um lado defronte do altar, como se estivesse imitando o corcunda de Notre Dame.

Também não usaria a mão e o antebraço esquerdo para buscar as alianças no bolso direito. Não ficaria com os braços cruzados enfiados na barriga, aparentando-se alguém numa camisa-de-força, a caminho do hospício.

O padre, antigo no ofício, abreviou a conclusão: “Sejam felizes no que for possível.” O casal vira-se no altar. Dali à rua há um corredor de 500 quilômetros, vê o confuso. Meio metro para a convicta. Igreja lotada, sucesso de bilheteria. Veio até o ex-marido, que durante a cerimônia justificou a sua presença “pelo cardápio anexado ao convite” não recebido. Cínico, mal-educado e rancoroso, pisou na cauda do vestido quando Ana Maria iniciava a descida da escadaria em 90 graus.

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