Buracos negros

Por: Silvana Bombicino Damian

Morreu naquela noite. Agora era um nada. Absolutamente nada.

Suas impressões digitais não mais seriam deixadas nas maçanetas das portas e armários da casa que, aliás, seria pintada e vendida. Nada. A rua estreita onde morou a vida inteira não mais sustentaria seu caminhar no tempo e espaço, nem a atmosfera ao redor seria inspirada e expirada por aquele ser que o fizera por setenta anos ininterruptamente e agora era nada. As conexões cerebrais únicas e progressivas ao longo do aprendizado da vida estavam suspensas, e a velha mangueira no quintal da casa ao lado nunca mais seria olhada, pensada e sentida com a peculiaridade e cumplicidade daquele olhar que já não era. O que realizou ao longo da vida, suas conquistas e frustrações, seus segredos e mistérios, seus paraísos e infernos; nada.

Foi sepultado no dia seguinte, chorado um pouco por amigos e parentes e devolvido talvez ao lugar onde estivera durante o infinito passado e estará para todo o sempre,interrompido por aquele insignificante espaço de tempo, incidental quem sabe, de setenta anos.

E a tarde seguiu tingindo os céus de cores quentes, prenunciando a noite escura, se não fosse a lua. Tudo o mais em seu lugar. Nada.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras