O sorriso

Por: José Antonio Pereira

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Pôs-se a escrever, cedinho, sem muito entusiasmo. Levantou-se e foi à janela. Ela parada, em frente, sozinha na rua deserta. Franziu a testa e ela lhe abriu o sorriso indefinível e meio espicaçante. Virou-se subitamente e caminhou, faceira, em direção à esquina. Ele se demorou um tempo olhando-a no andar lento e sensual. Balançou a cabeça lentamente. Voltou, sentou-se, e a mão tentou continuar a escrever o que iniciara. Rabiscou apenas uma frase e riscou-a. Jogou a esferográfica para o lado e retornou à janela. Lá estava ela no mesmo lugar. O franzir da testa duplicou. Ela risonha, ele intrigado. Tornou a caminhar lentamente em direção à esquina. O mesmo balançar de quadris. Sem ânimo, ele ainda se sentou para escrever. Levantou-se num arrastar de cadeira e novamente foi à janela. Ela sorria para ele, sorriso indefinível e espicaçante. Ele, decidido, amarfanhou o papel, jogou-o na lixeira. Pendurou o paletó no ombro, desceu, e lá ela estava, sorriso diferente. Vestiu o paletó, balançou a cabeça para ela, numa negativa aborrecida e lenta. Resolveu-se. Trancou a porta, aproximou-se dela, olhos vidrados de surpresa:

- Por quê?

Ela não parava o sorriso enervante:

- Por nada.

Caminharam lentamente até a esquina. Ele parou e ela continuou. Virou-se uma única vez, o sorriso vinha feroz e demoníaco.

Ele, desalentado, olhava em torno e não se decidia que direção tomar.

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