Sobre cargos e egos inflados

Por: Mauro Ferreira

Pouco antes das eleições, li nalgum lugar, entre consternado e insatisfeito, que o prefeito da cidade havia declarado que ficaria até o final do seu mandato em 2012, apesar das boas possibilidades que tinha em ocupar altos cargos públicos nos governos estadual ou federal, caso seus candidatos ganhassem. Tudo isso entremeado pelo seu surrado e furado discurso de culpar o prefeito anterior por tudo que dá errado em seu próprio governo. Como o povo brasileiro sabiamente escolheu o PT contra o qual ele vive vociferando para continuar governando bem o país, o cargo federal dele foi para o espaço sideral.

Restou-lhe como consolo um cargo estadual, última esperança daqueles que, como eu, preferem governantes democráticos, criativos e comprometidos com a cultura e a educação. Embora obviamente não tenha votado em Alckmin, aguardo entre esperançoso e ansioso, na torcida mesmo, que ele escolha nosso alcaide para “assessorá-lo” e nos livre de mais dois anos da mesmice e deselegâncias nada discretas. Experiência de vôo no governo estadual ele já tem, foi presidente da VASP no governo do Orestes. É verdade que não foi uma experiência exitosa ou bem avaliada, pois logo ele foi defenestrado ou defenestrou-se para fora do governo e a VASP nem existe mais, a dose foi tanta que até privatizaram a empresa logo depois.

Pensei com meus botões que, com esse currículo, ele poderia ocupar um cargo no DAESP, por exemplo, que cuida dos aeroportos estaduais, em sua maioria vazios como o nosso, espalhados pelo interior todo. Como suas administrações também são vazias de ideias novas, seria o político tucano talhado para o cargo e a probabilidade de algo dar errado seria mínima e imperceptível. Como dizia aquele advogado do consumidor, seria bom para todas as partes.

Acompanho diariamente (fazendo figa com os dedos) o noticiário para ver se o governador eleito lembra dele, mas nenhuma menção ocorreu até agora, os políticos aventados para as secretarias estaduais e as principais empresas públicas são outros, bem diferentes e de regiões com melhor representatividade que a nossa. Mas não esmoreci, continuo acreditando que, apesar da educação e saúde de má qualidade, das escolas centenárias a serem fechadas, dos pedágios exagerados, dos escândalos do metrô que não anda, do “vale-coxinha” para professores, afinal alguma coisa esse Alckmin ainda fará de bom para nós.

No entanto, através de um conhecido que é assessor de um deputado da situação e que acompanha a montagem do novo governo paulista (são seis mil cargos comissionados para o governador nomear emplumados e aliados), soube que o problema pode ser mais grave que pensei para desanuviar os ares francanos. “É que a nomeação do nosso prefeito pode ter esbarrado numa situação de difícil solução jurídica, seria necessário arranjar dois cargos”, disse ele. Estupefato, perguntei: “como assim?”

Ele respondeu secamente: “é isso mesmo, um cargo para ele, outro para acomodar o ego dele”.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras