Uma cor

Por: José Antonio Pereira

Desconhecia esta cor da água, que vi nos rios que beiram os Alpes! Nunca li a respeito, não me lembro de ver em filmes, ou fotos. Ninguém nunca me falou! Não é azul, não é verde, é de um tom muito diferente do celeste, e mais diferente ainda do que a cor do mar. Tentei fotografar a cor, em diferentes luzes do dia, de vários ângulos, sem ter certeza de capturar a cor dos rios que nascem nos Alpes e correm pelos vales.

Já vi gente com cor parecida nos olhos, principalmente bebês, que têm olhos muito grandes e abertos para o mundo. Já vi roupa com cor parecida, mas não tem aquela coisa cristalina e opaca (como é o marinho da cor do mar), cor que não é verde em nenhum tom, e lembra um azulado que não consigo pintar o tom.

Melhor imaginar. Estou tecendo palavras que brotam como rios deste meu degelo de percepção, palavras que nascem deste meu espanto por uma cor e correm em leitos de bem querer, de bem querer conhecer.

Nadavam nesta água desta cor patos selvagens e cisnes. Um lago-gelatina cor de... cor de...cor de alguma coisa que veio de árvores enregeladas, entre solidões altíssimas, que se formou branca em flocos, e escorreu, rio que não mais sairá da minha retina, deste lago que vai ficar parado no meu coração.

Qual foi a alquimia necessária para que a água ficasse assim, da cor ... da cor...? Alguém me perguntou: se você fechar os olhos, consegue enxergar a cor? Sim, eu vejo a cor, só não consigo achar como dar uma imagem aproximada desta beleza.

Nestas horas eu entendo como é valiosa a literatura: ela não pode dizer tudo, não consegue traduzir tudo, a literatura não deseja ou não se dispõe a descrever tudo. Os autores, sim, sofrem por querer chegar bem perto da vida, bem perto deste pulsar misterioso que habita o ínfimo e o imenso que opera no mundo.

A literatura sela um pacto secular: a imaginação do leitor deve continuar a partir do que a imaginação do autor tentou capturar. Os limites de um determinam os limites do outro. Assim a vida, assim a Literatura.

Assim dito, deixo esta minha limitada possibilidade: uma cor de água (imagine!) dos rios que se formam nos Alpes.
 

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