Mas logo o Lobato?

Por: Everton de Paula

112176

O erro que se cometeu no último Enem não se compararia aos desastrosos efeitos que implicaria a proibição ou restrição com notas explicativas da leitura de obras de Monteiro Lobato nas escolas de ensino fundamental. Causaria uma discussão mais acalorada e prolongada que as cotas universitárias para negros (pode-se usar esta palavra?), que armou uma situação dúbia quanto à discriminação racial.

Proibir ou restringir Lobato abriria uma brecha para proibirem outras leituras cujos autores ousaram tocar na ferida de credos, raças, aborto, eutanásia e demais temas polêmicos. O que falar de Guimarães Rosa e seus personagens sertanejos que sugerem exclusão social, abandono, esquecimento nos confins de Minas? O que pensar de Azevedo, de Euclides da Cunha, de Graça Aranha, de Taunay, de Graciliano e tantos outros que tocaram nas chagas sociais do Brasil? Vamos proibi-los porque o que eles escreveram para uma longínqua época não se enquadra na abominável questão contemporânea do politicamente correto?

É bom saber que o criador da Emília e de Pedrinho foi quem esclareceu para tantos brasileiros muitas ideias fundamentais sobre nacionalismo, democracia, política, língua portuguesa, valor do saber etc.

A partir de Narizinho arrebitado, Lobato foi acertando o tom da linguagem à compreensão de seus pequenos leitores, chamando-lhes a atenção para os vícios da sociedade brasileira e propondo soluções para cada problema. Descrente da capacidade de mudança dos adultos, buscou outro público e estimulou-lhe a capacidade de recepção de novas ideias que não incorporasse nenhuma visão antiga ou ultrapassada. Conseguiu seu intento e conquistou milhares e milhares de pequenos leitores, malgrado poderosas oposições, particularmente de setores religiosos que viam nele um ateu, comunista militante, com um utilitário lema de vida: “O mundo é dos espertos”.

Tendo tratado de assuntos os mais variados, Monteiro Lobato deu a seus fiéis e sempre renovados leitores uma panorâmica de pessoas, fatos e coisas, vistos por olhos de um brasileiro perspicaz que inveja a organização e o espírito laborioso de outros povos, inclusive o norte-americano. A coisa também pega por aí. O ufanismo que varre o Brasil de hoje pelas conquistas econômicas e algumas posições na escala mundial das nações vê com olhos tortos a parcela de “invejosos” de outras culturas. Mas esta é a leitura do mundo de hoje, e não a da época de Lobato. Será tão difícil entender isto?

Ler Lobato é conhecer um recorte da história cultural brasileira. Proibir Lobato é negar aos seus leitores o acesso a uma visão cultural de um grande brasileiro.

ML formulou para crianças, numa linguagem surpreendente pela sua vivacidade e colorido, a história do mundo e das invenções, a geografia, a aritmética, a gramática. Provou que não existiam assuntos áridos se o explicador fosse imaginoso e competente. Prova de sua extraordinária didática. Recontou e adaptou enredos de outros povos: fábulas e lendas, de Hércules a Peter Pan, sem esquecer Dom Quixote. No imaginário sítio, construído a partir de modelo real a fazenda de seu avô -, elaborou dona Benta e a cozinheira Nastácia. Deu vida a uma boneca de pano (Emília, símbolo da inquietação e inteligência de nossos pequenos); de um sabugo de milho fez sair um nobre (o visconde de Sabugosa); um porco virou marquês (Rabicó). Buscou nos amigos as feições e o comportamento de Pedrinho, de Lúcia, a menina do narizinho arrebitado.

Claro, os livros envelheceram em muitos aspectos, os conteúdos polêmicos foram atropelados pela verdade histórica, Lobato virou escritor “difícil” como Euclides e, ainda por cima, polêmico. Daí a proibi-lo é uma piada de muito mau gosto.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras