As Filhas sem Nome

Por: Lucia Helena Goulart Gilberto Pizzo

112178

A ficcionista chinesa Xinran Xue tem caminhado rumo a se solidificar como uma das mais sensíveis e competentes escritoras do século XXI. O nome Xinran significa “com prazer” na língua chinesa. Com prazer e dor ela deixa a China e se exila na Inglaterra, onde se casa e passa a publicar seus livros, o que seria impossível em sua terra natal. Em seus livros a escritora aborda “ o panorama da condição feminina na China revolucionária, suas conseqüências, e o retrato da China atual”.

Em As Filhas Sem Nome, ela evidencia a idiossincrasia entre a vida no campo e a vida na cidade, focando o que é nascer e ser mulher na área rural, onde pertencer ao sexo feminino é considerado motivo de vergonha e humilhação. As jovens personagens desta história estão na faixa etária entre 16 e 20 anos. Não são nomeadas por serem mulheres, e sim chamadas por números de acordo com a cronologia do nascimento.

Três, Cinco e Seis são as três irmãs desta história, que migram do campo para a cidade de Naijing. Fica explicado assim a escolha do título.

Primeiro parte Três, que foge de sua casa e sua terra. Depois de algum tempo seguem Cinco e Seis para o mesmo local onde passa a viver a irmã.

Li Zhongguo, o pai das jovens,é mostrado no romance com um comportamento que a nós, ocidentais, soa estranho. Caminhava por sua comunidade de cabeça baixa por não ter gerado descendentes homens, os chamados “cumeeiras”, ou seja, filhos fortes e provedores. As meninas chinesas da área rural, nesta sociedade preconceituosa, são conhecidas como “meninas palitinhos”, consideradas as fracas e descartáveis...

A história de Três, Cinco e Seis se passa entre 2001 e 2004, e está baseada em fatos reais. As jovens partem de sua aldeia natal com o intuito de mudar essa imagem cristalizada, segundo a qual pertencer ao gênero feminino é motivo de submissão e paralisação.

As irmãs tiveram muita dificuldade ao se defrontarem com o mundo globalizado, com os códigos vigentes de condutas sociais e tecnológicas, sendo o choque cultural muito grande. Receberam calor humano de algumas pessoas que as ajudaram a arrumar emprego.

Três passou a trabalhar em um restaurante; posteriormente Seis, que era alfabetizada, encontrou ocupação em uma casa de chá onde havia muitos livros. Cinco fixou-se num Centro de Medicina milenar, como ajudante, pois era analfabeta.

Elas passam a ver a diferença de um mundo regido por leis patriarcais e outro mundo onde a mulher pode emitir opiniões, conversar olhando no olho de um homem.

Ao ler este livro, fica-se com a idéia de que todos esses códigos arcaicos não são reais, tamanho é o preconceito exercido sobre a mulher do campo.

Xinran, baseando-se em histórias reais e atuais para seu programa de rádio, ouviu relatos que a chocaram e que a levaram a escrever este e outros livros.

As Filhas Sem Nome navega também por mares de extrema inocência, pureza, beirando a ignorância em certos detalhes, como algo surreal nos tempos hodiernos.

Três, Cinco e Seis vão recriando conceitos e olhares, apesar de suas raízes rurais que poderiam parecer, neste contexto, altamente impeditivas de mudanças.

No posfácio, Xinran mostra como conheceu as mulheres que nesta cultura milenasr e retrógrada, não mereciam um nome,apenas um número. Esclarece também como nasceu o embrião do livro e seu desenvolvimento.

As três jovens protagonistas do romance refletem a condição de muitas que um dia disseram não a um futuro programado. Umas conseguiram mudar a sua realidade, outras não. O importante é lembrar que muitas tentaram sair desta couraça, movidas por padrões férreos, e foram à luta!

De “meninas palitinhos” a mulheres de carne e osso construíram sua subjetividade e o amor próprio como lhes era possível.


DENÚNCIA DE PRECONCEITO

Xinran Xue

Xinran Xue nasceu em Pequim, em 1958. De 1989 a 1997 trabalhou como jornalista em rádio. Num dos programas que comandava convidou mulheres para partilhar suas experiências de vida. Ao conversar com elas, acumulou histórias que a impactaram. Em 1997 viajou para Londres, onde mora atualmente. Foi na Inglaterra que Xinran sentiu-se capaz de tornar públicos estes casos. Em julho de 2002, apareceram na Grã-Bretanha, sob a forma de um livro, As boas mulheres da China, agora publicado em todo o mundo em mais de 30 línguas, tornando-se um best seller internacional.

Sky Burial, seu segundo livro, saiu em 2004. É a comovente história de Shu Wen, que poucos meses após seu casamento, em 1950, se juntou ao exército chinês e foi enviado ao Tibet com propósito de unificação das duas culturas. Uma coleção de colunas do Guardian Xinran 2003-2005, O que os chineses não comem, foi publicado em 2006. Abrange vasta gama de assuntos. Mas a estreia da escritora na ficção deu-se com Miss Pauzinhos, publicado em julho de 2007. É romance que explora a difícil relação entre chineses ‘trabalhadores migrantes’. China Testemunha: vozes de uma geração silenciosa foi publicado em outubro de 2008 e resultou de 20 anos de entrevistas realizadas por Xinran com homens e mulheres.

Xinran muitas vezes aparece na mídia ocidental, incluindo a BBC e a Sky, comentando as relações do Ocidente com a China. (LHGGPizzo)


Serviço
Titulo: As Filhas sem Nome
Autor: Xue Xinran
Editora: Cia das Letras
Páginas: 290
Onde encontrar: Para Ler
Preço: R$ 34,90

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras