Como pronunciais vossos ais?

Por: Antonio Coutinho

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Estava eu conduzindo uma boiada de Goiás pra Minas Gerais e me deu uma pontada bem no meio das costa. Meu cavalo decerto também sentiu, porque no mesmo tempo olhamo pra trás. Cutuquei as costa com o cabo da chibata, meu cavalo bateu o rabo na anca. Nada havia.

Se bicho pequeno se esconde bem no dia, fica mais difícil perceber no início da noite. O sol desaparecia, parei enquanto via. Meu companheiro, que fica no fim da fila, gritou:

- Parou a procissão. É pra ajuntar ou deu algum pobrema?

- É pra ajuntar.

Nessa hora a gente faz tudo rápido, pra ter tempo de comer na calma e não cochilar na mastigada (alimento é sagrado, precisa do maior respeito devido): nós quatro agrupa o gado, então eu ele faz o cercado de corda amarrada nos arbusto do serrado e nisso os dois cavalo cercam a mula com os mantimento muidada a seguir andando, depois que inicia a marcha.

Se não se pára perto dágua nas nossa andança, conforme nesse caso, se vai logo fazer a comida e nada se fala até a última garfada, só “até amanhã”, na virada pra dormir.

Na deitada, senti de novo a pontada, mais doída; meu cavalo agora no pêlo virou o pescoço até quase sua metade; meu companheiro se coçou atrás agitado e seu cavalo bateu o rabo na anca adoidado.

“Coisa esquisita”, ele pensou no meu pensamento. Não sei por que não pedi pra dar uma olhada na minha costa, ele também não, nem nos mexemo pra olhar os cavalo, talvez porque nós quatro só se mexia no mesmo incômodo e não falava.

Cada um tem uma maneira de pronunciar seus ais, pensei deitado de lado, sem poder ficar de outro jeito e dormir olhando as estrelas.

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