A primeira professora

Por: Marco Antonio Soares

Recordo-me de dona Yoko, minha primeira professora. Sempre a vi muito grande. Usava uniforme rosa-claro e seus cabelos negros emolduravam o rosto de pele amarelecida. Era uma mulher bonita, que mesmo sendo professora, ensinava muito sem os lábios, ordenava manso com os olhos.

Em suas aulas, o esquecimento de tarefas de casa não conhecia palavras exasperadas, os vistos nas folhas pautadas não geravam bilhetes aos pais, o discurso sincero jamais injustiçou alguém e meus quarenta por cento de visão nunca receberam os óculos do privilégio.

Pelo contrário, às sextas-feiras, dia em que se recitavam pequenos versos na escola, eu era sempre um dos três alunos da sala escolhido para a terrível tarefa de declamar algumas rimas. As cataratas de minha alma perceberam da professora somente o cultivo à minha memória, não reconhecendo a luz intensa, que aos poucos afugentava minha timidez.

Certo dia, ao término de uma aula, uma hemorragia teimosa me socou o nariz. A jovem professora não precisava, mas ficou ao meu lado, até que os quarenta toques de minutos sucumbissem as rubras gotas. Posteriormente, sua mão quente se abraçou à minha, auxiliando-me à volta a casa, pelas ruas longas, da cidade de Osasco.

Hoje, molesto pensamentos, acariciando cicatrizes passadas, percorro ruas estreitas de um coração apertado, procurando o professor Yoko, que há tempo desejo ser.

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