Cheiro de Natal

Por: Eny Miranda

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Quando as mangas, já graúdas, principiavam a amadurecer; quando aqueles pingentes verdes pesavam nos galhos, curvando-os, e começavam a pintar-se de preto ou a amarelar, o sinal estava deflagrado. Sabíamos disso. As mangueiras passavam a exalar um cheiro característico, convidativo. Eram mães de todos nós, e nos ofereciam seus inúmeros frutos, pródigas, generosas. Isso significava dezembro chegando.

Então, esperávamos ansiosos por outro sinal. Sabíamos o que papai nos diria:

- Já é hora de irmos a Sapucaia!

Sapucaia, cidade do interior do Rio de Janeiro, situada no vale do Paraíba do Sul, era arborizada de frondosas mangueiras. No tempo dos frutos maduros o perfume tomava suas ruas. Para nós, Sapucaia era sinônimo de Natal às portas.

Mas não eram só as mangas que povoavam a atmosfera de nosso mundo, nas proximidades dos dezembros, eram também os abacaxis e as jabuticabas - estas, trazidas da feira ou compradas na porta de casa, já que não tínhamos uma jabuticabeira em nosso quintal. E as goiabas maduras, cujo coração, feito de mil embriões de novas goiabeiras, constituía-se a parte mais saborosa da fruta, e a mais cobiçada por nós. E as uvas mais cheirosas dentre todas as uvas que eu conhecia: as Niágara - aquelas escurinhas e bem redondas, cuja polpa se destaca inteira à compressão; polpa esta que engolíamos com as sementes, para evitar a acidez, invariavelmente experimentada caso ousássemos romper a sua intimidade. O caldo, muito doce, recolhia-se no côncavo da casca rota, e era sorvido logo depois.

Um odor muito peculiar marcava, pois, essa época: o Cheiro de Natal (assim o chamávamos), cujas notas de cabeça e de coração - por assim dizer, em analogia aos perfumes -vinham das Niágara, dos abacaxis e, obviamente, das mangas, principalmente das de casca verde intenso, coberto de manchas negras (e com mil fiapos na polpa), e das bem amarelinhas, com polpa de consistência suave e cremosa.

Havia ainda um aroma especial, que se integrava a esse buquê apenas nos dias 24 e 25 de dezembro: o das rabanadas, que mamãe preparava com suas abençoadas mãos, e que recendiam a uma mistura de pão, leite, caramelo e canela.

O Cheiro de Natal, de que reconhecíamos cada fração aromática, era o maior e melhor presente que nos chegava a cada ano, enviado pelo Deus-menino. Símbolo de promessa e reafirmação de Vida.

Hoje, como a madeleine de Proust, ele me transporta no tempo e no espaço. Devolve-me à infância. Mas, além disso, desperta-me para um outro momento. Fala-me da chegada de novos protagonistas de histórias natalinas.

O característico e amorável buquê agora me conduz a um ato consciente: refletir sobre novos dezembros; pensar em outras notas formadoras de Cheiro de Natal. Convoca-me a falar em visitas a novas Sapucaias; desperta-me o desejo de oferecer formas, cores e perfumes inesquecíveis - como faziam as mangueiras de meu quintal - a outras vidas, propiciando-lhes a criação, no sensório e na alma, de um buquê-madeleine que as acompanhe tempo afora.

O Cheiro de Natal hoje me diz que é hora de abrir portas e coração e braços; de plantar odores e amores; de preparar o ninho, porque meus frutos e os frutos de meus frutos acenam a sua chegada com o próximo dezembro.

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