Os óculos de vó Fabiana

Por: Téo Lopes

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Depois de retirar as pantufas e ajeitar o travesseiro, vó Fabiana colocou a dentadura dentro do copo de água e foi como se tivesse guardado o próprio sorriso. Na cama, antes de dormir, ela só pensava nos problemas do dia a dia: a filha que insistia para que ela tomasse só os remédios que o médico receitava, as amigas da netinha que vinham só para vasculhar a geladeira, todas as dores que ela sentia pelo corpo, todo mundo querendo que ela fizesse repouso, que não ajudasse nos serviços de casa, que não saísse sozinha na rua, enfim, problemas que mantinham seu sorriso longe do seu rosto e intensificavam seu habitual mau humor. Sempre que olhava aquele copo com a dentadura em cima da cômoda, vó Fabiana fazia cálculos e mais cálculos e chegava a conclusão que lhe restava quase nada de vida para fazer tudo o que ela ainda tinha vontade. Vó Fabiana queria ser bombeira, vó Fabiana queria ser médica, vó Fabiana queria ser caminhoneira, vó Fabiana queria ser comandante de navio. Mas para isso ela precisaria de outros remédios.

Guardou os óculos de perto na caixinha ao lado da caixinha dos óculos de longe. Os dois ficavam ali na cômoda, sempre perto, ao alcance da mão, porque ela precisava dos dois, os óculos de perto e os óculos de longe. Os seus dois filhos se pareciam com os óculos. Ela tinha uma filha que morava perto e um filho que morava longe. Nos seus pensamentos, Vó Fabiana comparava os filhos aos óculos.

Os óculos de perto serviam para ela fazer uma costura, remendar alguma coisa, enfiar a linha na agulha, fazer um curativo na neta, colocar a dentadura no copo, olhar fotos antigas, etc. A filha de perto servia para implicar com ela, insistir para ela ir ao médico, determinar que ela não fizesse os serviços de casa, dizer a todo momento que ela não servia mais para nada.

Já os óculos de longe eram para assistir televisão, passear na rua de vez em quando, reconhecer os vizinhos, abrir a janela e ver se o dia era bonito ou se vinha chuva. O filho de longe servia para ligar uma vez por mês, para não dar notícia, para explicar que não vinha para o Natal, para confessar que esqueceu de ligar no aniversário dela, para nunca dizer que estava com saudades e que queria voltar.

Se ela pudesse colocar os óculos de perto e trazer a sua filha para junto do seu coração, colocá-la no colo, cantar para ela dormir...

Se ela pudesse colocar os óculos de longe e enxergar o filho sorrindo para ela, acenando e dizendo que estava pegando o próximo ônibus, estava voltando...

Mas não. Os óculos não tinham esse poder, não eram óculos mágicos. A filha tinha sua vida, trabalhava no fórum, recebia um bom salário e o peso de ter sido abandonada pelo marido deformara sua tranquilidade juvenil. É, a filha tinha seus problemas e vó Fabiana sabia que era mais um desses problemas na vida dela. Apesar de morarem perto, na mesma casa, os corações estavam longe, cada um guardado em sua caixa.

O filho tinha seu emprego, saíra de casa cedo em busca dos seus sonhos, construíra toda uma vida em outra cidade. Estava bem casado, com duas filhas que ela só conhecia por fotos. Fotos que ela guardava na gaveta do criadinho, bem perto dos óculos de perto.

Tanto a filha quanto o filho tinham sua preocupações, seus pensamentos, suas necessidades de perto e suas esperanças de longe.

Ela pegou os dois óculos na mão. Acariciou-os. De qual gostava mais? Qual era mais importante? Seu nascimento estava tão longe! Sua infância, suas tardes para brincar, seus brinquedos para entardecer... O primeiro namorado... Tudo tão distante, tão pra lá. Já a morte, essa estava ali, perto, muito perto.

Colocou os óculos de longe sobre o coração e ele bateu como o de uma criança, mas a saudade foi tão intensa que ela teve que trocar: pôs os óculos de perto sobre o coração e ele cochichou para ela:

“Sua vida começa hoje.”

Será que dava tempo para operar os olhos? A medicina tinha evoluído tanto nas últimas décadas... Depois da operação ela não teria que se preocupar com óculos, com o longe e com o perto, apenas com ela própria, com as coisas de dentro e de fora dela. Poderia dar as caixinhas para a neta brincar, ficando só o copo da dentadura ao lado da cama. Quem sabe ela pudesse levar o sorriso para o travesseiro, dormir sorrindo, enxergando o lá e o cá ao mesmo tempo, com a mesma nitidez.

Tiraria o passado e o futuro das obrigações dos óculos e os colocaria sob a responsabilidade da dentadura. Sorriria para o tempo. Sorriria para os filhos.

Vó Fabiana resolveu adormecer. Cedinho precisava levantar, ela dormia pouco. Tinha muita vontade de viver, a vó Fabiana.

Antes de dormir, escutou, bem perto, o tic-tac do relógio, e longe, bem longe, trovões, muitos trovões. Ela ainda se lembrou do que dizia seu finado marido: trovão longe, chuva perto.

Vó Fabiana ia ter que acordar bem cedo.

Quase caindo no sono, um barulho de chave na porta: era a filha chegando, certamente bêbada. Ouviu seus passos em direção a cozinha, depois ouviu uma geladeira, um copo d’água, uma tosse, uma bolsa no sofá e um choro baixinho.

A filha estava chorando no sofá da sala.

Vó Fabiana esqueceu do sono. Apanhou rapidamente os dois óculos: o de longe para poder caminhar até a sala e o de perto para sentar-se ao lado da filha, ver o tamanho de cada lágrima.

Mãe, a senhora não precisava levantar...

Não tinha cheiro de bebida nessas palavras.

Posso deitar no seu colo?

Vó Fabiana acariciou os cabelos da filha.

Porque está chorando?

Eu tava no bar com umas amigas, aí o seu filho ligou... A fábrica vai abrir uma filial aqui na cidade, e ele já conseguiu transferência. Ele vai voltar mãe! Aí eu lembrei da nossa época de crianças, das brincadeiras, de como a senhora colocava a gente na cama e cantava pra gente dormir. Eu pensei em tanta coisa...

Vó Fabiana fechou os olhos e cantarolou uma musiquinha de ninar. Depois, mesmo sem a dentadura, sorriu.

Nem dava para acreditar: a filha no seu colo e o filho acenando ao longe, dizendo que estava voltando.

Quando ela deitou na cama, refez suas orações e segurou os dois óculos. Colocou os óculos de longe sobre o coração e ele bateu como o de um bebê, mas a sensação foi tão confortável, tão gostosa, tão aconchegante que ela teve um pouco de medo e trocou: pôs os óculos de perto sobre o coração e ele parou de bater.

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