O hotel Vila Rica

Por: Mauro Ferreira

Em 1978, quando eu e o Vital, meu sócio numa empresa de construção, começamos a lecionar em Passos, a Faculdade de Engenharia bancava nossa estadia no Hotel Vila Rica, bem próximo ao prédio principal da escola. O hotel tinha sido inaugurado no começo daquele ano, estava novinho em folha. Em 1983, o Vital saiu e eu fiquei sozinho.

Ao longo dos anos, centenas de professores e vendedores que vinham de outras cidades, muitos de Franca, pernoitaram e ainda pernoitam no mesmo hotel. Tive idas e vindas com o hotel, pois ocorreram períodos em que eu voltava no mesmo dia para Franca e não ficava por lá, depois a carga de trabalho foi aumentando e aí sim, eu passei a me hospedar ao menos uma vez por semana no Vila. Motivo pelo qual talvez eu seja o seu mais antigo hóspede e posso falar de cátedra sobre o que foi ocorrendo com ele.

Há histórias fantásticas. Ainda não existia TV a cabo. A tomada do frigobar era a mesma do aparelho de TV. Você estava assistindo um filme de suspense e, na hora H, o frigobar ligava e mudava sozinho o canal. Ou então era uma partida de futebol na hora do pênalti, não havia dúvida, o frigobar ligava e não se via a cobrança, se tinha sido gol ou não. Até que veio a TV a cabo e acabou com o folclórico controle remoto do frigobar, sob protesto dos professores mais antigos, que alegavam ser patrimônio histórico do hotel.

Outra coisa inacreditável era a dificuldade do administrador do hotel em se livrar de coisas obsoletas ou estragadas. Ele foi ocupando quartos e mais quartos do hotel com velharias inservíveis, desde listas telefônicas de 1980, passando por geladeiras queimadas até o sofá de couro puído da recepção, renovado nos anos 90. Tudo ele foi acumulando, apesar de nossos apelos pela coleta seletiva dos resíduos e pela reciclagem tão útil ao planeta. E existia uma lenda, segundo alguns professores mais sarcásticos (confesso que nunca vi), o “santo sudário”, uma renitente roupa de cama manchada com a forma de um corpo humano que aparecia nalguns dos quartos de vez em quando.

A verdade é que, como todos nós, o hotel foi envelhecendo. Aquilo que era novo em 1978, moderno, foi se tornando obsoleto, antiquado. Os funcionários antigos foram se tornando amigos, dificultando reclamações. E nós professores, envelhecidos, reclamávamos das escadas, das barras de apoio inexistentes nos banheiros, do café da manhã, do calor infernal, de quase tudo enfim. Só uma completa reforma poderia dar jeito naquilo.

Segundo um colega irônico que vive on-line, o Vila Rica tinha se transformado no Vila Pobre. Para nossa surpresa, o hotel foi vendido recentemente. A nova e dinâmica proprietária promete fazer tudo aquilo que a gente vinha reclamando há tempos. Por enquanto, uma coisa já mudou: todas as funcionárias estão usando uma touquinha branca e chique nos cabelos.

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