Negro preto ao molho pardo

Por: Antonio Coutinho

Deitada no meio da rua, a cachorra grávida vê triste, esticada no asfalto, as três crias disputando na calçada os restos e sobras em sacola de supermercado: rosnam, seguram uma ponta, as duas crentes em haver algo, como em todas as crenças; a menorzinha, do outro lado, rola na barriguinha com pedaços de plástico nos caninos e volta ao quero mais na maior alegria. (...) Homens e mulheres ignorantes das teorias da Física fundem-se no baixo ventre, ocupam um espaço ao mesmo tempo e fodem com a tese da impenetrabilidade.(...) Se a vida é um acontecimento espetacular, melhor seria sem as arquibancadas numeradas. (...) Pátria é onde se vive bem, disse a filha na despedida e repetiu: ubi bene ubi pátria. Secou o começo das lágrimas da mãe, ex-professora de latim. (...) O negro preto com mestrado na história do Brasil não suporta a histeria da família: se estudou tanto e não conseguiu ter sequer uma bicicleta usada, pra que insistir nesse tal de doutorado?

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