O velho Chicão

Por: Chiachiri Filho

Deram-lhe o nome de Chicão. Diziam que ele tinha mais de trezentos anos. Outros, menos exagerados, davam-lhe uns cento e poucos. Veio lá das bandas de Mato Grosso, trazido por Alfredo Tozzi.Tinha a forma ovalada, a pele áspera e enrugada. Seu casco, duro como pedra, parecia demarcado em lotes. Andava devagar, bem devagarinho. Agüentava, sem muito esforço, os maiores pesos. Ao subirmos em cima dele, encolhia-se todo e, logo depois, aprumava-se e caminhava lenta e pachorrentamente como se nada carregasse. Nossa diversão era trepar em seu casco e esperar que ele se movimentasse. Suportava o Carlão Haddad, o menino mais pesado da redondeza, sem qualquer dificuldade. A criançada costumava conclamar:

-Vamos dar uma volta de tartaruga!

Porém, Chicão não era uma tartaruga, mas sim um jabuti.

Muitos meninos de nosso tempo possuíam o seu bichinho de estimação: cachorros , gatos, coelhos, papagaios, passarinhos. O Rodorfão também tinha o seu: o velho, lento e estranho Chicão.

Anos mais tarde, fui encontrar o velho e conhecido Chicão no Museu Histórico. O Museu funcionava na casa do Capitão Alípio ( onde hoje se acha o Tower Hotel ) e Chicão andava solto pelo seu vasto quintal. Diziam que ele havia enlouquecido. De fato, se antes Chicão era manso e lento, agora, ao perceber uma perna humana, cansado de desempenhar a função de burro de carga, recolhia sua cabeça para dentro do casco e, com a maior rapidez que lhe era possível, arremessava-se contra a canela do incauto. Ao que consta, teve sucesso em algumas arremetidas e, segundo as vítimas, a pancada doía.

Antes do Museu ser transferido para a sua atual sede, Chicão morreu. Morreu e foi enterrado no quintal da casa do Capitão. Com isto, o Museu, segundo dizem, perdeu uma das suas mais antigas e curiosas peças.

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