Carreira de peão

Por: Marco Antonio Soares

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A vida de um menino tímido é repleta de amores platônicos. Célia foi um deles. Das quatro irmãs, ela era a mais bonita. Dos três primos, eu era o mais feio. Certo dia, meu coração, sem motivo algum, deitou-se vazio e acordou apaixonado.

Tudo em mim mudou, a relva não tinha espinhos, os cavalos não davam coice, o sol a pino permanecia ameno. E a moça, de cabelos escorridos até os ombros, de olhos negros e gênio forte, de pés duros pelo andar descalço, tornou-se princesa encantada. Uma tarde, quando meus olhos já se despediam do sol, ela sentou-se ao meu lado.

O coração acelerou, a mais ínfima das ideias deixou-me completamente só, um bando de palavras bateu asas repentinamente. A menina me inquiriu sobre várias coisas: a vida na cidade, os estudos, o clima, tudo. Deus afrouxou-me os parafusos do maxilar inferior, o diabo fez conserto às pressas, apertando em demasia as peças. Assim, os poucos monossílabos que me escaparam saíram balbuciados, a moça se entediou, a timidez venceu.

No outro dia, encontrei meus primos fazendo algazarra no curral, as meninas riam empoleiradas sobre a cerca. Animadas com a farra, sugeriram uma montaria nos pequenos touros. Sem perder tempo, lancei-me como voluntário, todos bradaram meu nome, as meninas entusiasmaram-se mais, era minha oportunidade, um herói não precisava dispor de palavras, bastava a ação e a colheita de seus louros.

A custo seguraram o pequeno nelore e me prepararam para a montaria. Olhei ao redor, já desfrutando a glória. O animal ganhou o espaço, dando um berro de fúria, o chão ganhou meu corpo, deixando-me sem fala. A última coisa de que me lembro foram os alvos dentes de Célia que se multiplicavam em gargalhadas, mas seu rosto foi sumindo...sumindo.., em meio a enorme nuvem negra que me fez adormecer.

Acordei com minha tia chamando-me pelo nome, dando-me pequenos tapas no rosto e esfregando álcool em meus pulsos. Primos e primas, ao meu redor, pareciam aflitos. Quando me sentei, todos perceberam que tudo não passara de um susto. As bochechas solidárias se inflaram até que não se contiveram e explodiram novas gargalhadas, levando os que estavam em torno de mim ao choro.

Insistiram para que ficasse mais tempo na fazenda, não houve jeito. Do fracassado se exigem, às vezes, muitas palavras de explicação, e eu jamais as tive. Com mochila nas costas, sem a capa de herói e vestido com o pijama da humilhação, segui estrada afora, ouvindo, de quando em quando, as risadas sonoras do meu quase amor.

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