Chuvas de verão

Por: Mauro Ferreira

Por volta de 1975, construí meu escritório de arquitetura na avenida Alonso y Alonso. Associado ao engenheiro Vital, a manhã dos sábados era reservada ao encontro de amigos que passavam por lá para conversar fiado, como Hamílcar Pucci, hoje dirigente do grupo Amazonas, o Hirção Teixeira, ainda estudante de engenharia e vários outros.

A avenida sempre inundava após as chuvas fortes de verão, virava um rio. Eu estacionava o carro longe com medo da enxurrada arrastá-lo e não foram poucas as vezes que esquecí da providência, a chuva chegava de repente e não dava mais tempo, a gente só torcia vendo o carro balançar na água. Tempos depois, eu, o engenheiro Paulo Hernandes e o arquiteto Luiz Antônio (o Vital mudou de Franca logo depois que seus alunos começaram a cantar Vital e sua Moto, dos Paralamas do Sucesso) trabalhávamos ouvindo no rádio as canções de sucesso e uma delas era “It´s raining again”, do Supertramp, hit do verão inteiro de 85. Tudo isso ficou no passado, o Paulão já virou até avô. Menos as tradicionais chuvas da temporada.

Lembro disso por causa do Isao Minamihara, um imigrante japonês que nos contratou para projetar sua casa. Descendentes nipônicos são poucos na cidade, posso lembrar alguns como a Beth Maegawa, que estudou comigo no IETC (por onde andará?), da Zuleika Takarada (atenciosa fornecedora de discos de rock no tempo da Lâmina de Ouro), da médica Norikô, que mudou-se há muito tempo para BH e da Cecília Morikochi, que também foi minha cliente.

O Isao tinha um sítio, onde vivia numa casa pequena e simples e resolveu, provavelmente influenciado pelos filhos já adultos, fazer uma boa moradia, prevendo inclusive um ofurô. Ele passava sempre pelo escritório para discutir detalhes do projeto. Era verão. Meu primeiro escritório tinha virtudes e defeitos de um jovem arquiteto. Acho que foi a primeira construção em blocos de concreto com junta de amarração na cidade. Para dar um ar modernista, coloquei uma calha central e invertí o telhado de grandes peças planas de fibrocimento. O erro foi fatal.

Estava discutindo com o “sêo” Isao o projeto quando começou a chover forte. Muito forte. Virou uma monção, vendaval, cataclismo, sei lá, o fato é que caiu água demais e, de repente, granizo. A calha central transbordou e começou a cair água do forro sobre as pranchetas. Foi aquela correria geral para tirar os desenhos em papel vegetal das pranchetas, enquanto Isao ria, ria a bandeiras despregadas. Acho que ele nunca riu tanto na vida dele, homem sério, dedicado e trabalhador, um pioneiro que começou a plantar uvas na região.

Por via das dúvidas, ele passou a exigir no projeto de sua casa telhado cerâmico, sem calhas e bem inclinado. Gato escaldado, obedecí no ato e o resultado ficou bem bonito, mas não sei se ela ainda existe hoje. Sei apenas que logo diremos “it´s raining again”, é bom preparar as panelas para goteiras.

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