Sem ponteiros

Por: Maria Luiza Salomão

“quando o abrigo é seguro,

a tempestade é boa”
Henri Bosco

Olho para o céu escuro e não vejo cometa, nem a grande Estrela. Tenho medo de não saber voltar. Estou sem qualquer indicação, sinal, intuição, sem nenhum, mesmo vago, sentimento de como e para onde me mover.

Abrigo o desejo de dar à Vida algo eterno, iluminado. Tenho que correr, me esconder, encontrar uma caverna, uma gruta qualquer. Posso morrer, e, comigo, o que trago em mim. Ninguém anda feliz, todo mundo atrás de alguma coisa parecida com o que quero. Mas ninguém conversa com ninguém. Furiosamente perdidos, como eu.

Trago no ventre o desconhecido. Estou faminta, sedenta, extenuada, eu não sei qual o motivo desta crueldade toda. Falam em genocídio, suicídio coletivo, desperdícios, alguns têm nostalgia da Noite Feliz que viveram quando crianças. Trago, dentro de mim, algo sagrado que preciso, quero, sinto que é necessário colocar no mundo. Mas não pode ser em meio a festejos, ou pior, em meio a esta histeria coletiva.

Aqui.

Sim, aqui é o lugar, nesta lapa. Vem comigo José, desorientado tanto quanto eu. Não sabe do que nos escondemos, mas me protege, ou tenta me proteger.

Procuro me ajeitar, alguns animais se abrigam junto a nós dois, e eu estou com medo. O silêncio é grande, a lapa é pequena, e a noite vai ser longa.

A minha gravidez (eu me sinto grávida!) é esquisita. A barriga não cresceu e o meu companheiro não entende a minha ânsia.

Ao fazermos silêncio, escuto - ao longe - um burburinho na cidade, um som misturado, parece festa, parece guerra. Serão choques de aço com aço, ou copo com copo? Os homens se congraçam ou se desgraçam? Ou os dois?

Vou, aos poucos, serenando. Dividimos o pão, o queijo e o vinho. Dentro de mim nasce, finalmente, uma luminosa voz: “aqui é onde tudo deve começar”.

Não entendo, mas aceito. Humildemente me alegro, sinto algo parecido com o que senti quando nasceram meus dois filhos. Alguma coisa fez sentido neste lugar e agora. Que lugar é este? Como chegamos aqui? Salvos, e aliviados.

Amanhece devagar, escuto o primeiro canto do galo, o medo se foi, sinto que me foi confiado o caminho da volta.

Cuidaremos, agora, do que já deveríamos saber cuidar, quero crer. Os animais saíram ao sol. A Noite escura terminou sem festa e sem guerra, sem frenesi. Nós readquirimos nossos ponteiros.

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