O ateu

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Fosse o que fosse, muleta psicológica alguma o faria entrar novamente em outro templo. Aliás, andava agora com as próprias pernas, ou melhor, com a própria alma. Nada de doutrinas, dogmas, promessas, patuás, rituais, simbologias, imagens. Desvencilhara-se de tudo e este vazio religioso deixara-o repleto de realidades palpáveis. Não haveria mesmo pecados ao sul do Equador. Chegara à conclusão de que religião era estar feliz consigo e depois compartilhar a alegria com o resto do mundo. Descobriu também que era uma estupidez querer dissuadir um católico, por exemplo, de sua fé pautada numa história de dois mil anos. Afinal a ‘sua’ história tinha apenas alguns meses. Só lhe importava uma certeza, a de que quando morresse não iria a lugar algum, exceto ver o nada sob a terra, após a comilança efetuada por milhares de vermes.

Ainda assim sentia-se pleno, não dono da própria vida, porque esta era apenas um fio, mas dono de suas vontades, de seus desejos, de seus passos e do próprio destino. Divindade alguma o impediria de viver como se lhe propunha. Um ateu convicto capaz de crer na beleza das manhãs, azuis ou não, mas sempre belas porque o convidavam a viver extasiadamente um novo dia. Assim como as noites, prateadas ou não, pela luz da lua, mas sempre convidativas a uma reflexão emotiva face ao brilho das estrelas. Faria seu o beijo de todas as mulheres, externando emoções às pessoas que, como ele, possuíam a mesma crença : conquistar a felicidade através do que a natureza simplesmente oferece a cada segundo. E assim viveria alguns ‘eternos’ anos, lógico, sujeito ainda às formalidades de uma sociedade hipócrita, mas fiel à sua nova crença que consistia em não ter obrigação de acreditar em porra alguma !

Após anos e anos religiosamente engessado conseguira voar para fora dos limites de uma gaiola imaginária e, como um pássaro, sentir-se como um elemento componente da natureza. Um mundo criado por ninguém, lindo e imperfeito, com crianças formosas e outras sem pernas ou braços, quando não em farrapos a mendigar um pedaço de pão ...

Não veria mais com tristeza estas discrepâncias, veria com ódio, já que promessas de um mundo melhor não mais embaçavam sua visão nem hipnotizavam sua mente.

Aceitaria o ódio com naturalidade. Odiar não seria pecado, pecado seria amar por imposição de preceitos ou recomendações de deuses imaginários nunca vistos por qualquer olho humano. Deuses enigmáticos e invisíveis criadores do amor ... e da dor. Criaram e escafederam, para sempre. Fosse o que fosse, nada o faria caminhar tateando um provável e único caminho que pudesse levar às glórias eternas. Eterno agora seria deixar o olfato dizer que o bom e envelhecido uísque está na mão direita do pai todo poderoso, segurando o copo com várias pedras de gelo a tilintar quando levado à boca. Eterno agora seria o gosto do baton e a suave aspereza da pele arrepiada da donzela, nos lábios ávidos, não do filho, nem do espírito, tampouco de algum santo.

Fosse o que fosse, seria eterno...

Hélio França
Engenheiro

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