Ambição

Por: Maria Luiza Salomão

Rita Lee diz muito em poucos versos. Ouvi, ao som da voz de Zélia Duncan, a música que compôs, Ambição.

Ser chamado de ambicioso para algumas pessoas é pejorativo, outros veem defeito em quem não é ambicioso. Associa-se ambição com desejo de posses materiais, acúmulo de bens. A ambição se origina de uma vontade, é ganância.

Rita Lee, muito simplesmente, canta que, apesar de ouvir falar de um “mundo pequeno” “pelo caminho de espinhos/avistei um mar de rosas”.

Em dois versos resume esta enorme descoberta, de que o mundo, além de grande e belo, é profundamente efêmero. Um Mar de Rosas pode murchar, e desaparecer, morrer. Mar de Rosas é miragem.

O que ambicionamos não se assemelha a uma miragem, no mais das vezes? O sujeito poético avista o Mar de Rosas e reconhece quatro grandes necessidades para “chegar lá” - Tempo, ter um Grande Amor, Dinheiro e Humor.

A sequência do caminhar ao Mar de Rosas ganha sentido. 1.Tempo, primeira necessidade. Sem Tempo não há grande amor, nem Dinheiro, nem Humor, muito menos Mar de Rosas. 2.Amor demanda esforço, devoção, eternidades distraídas. 3.Dinheiro - como negar que um Grande Amor demanda Tempo e mais algumas necessidades básicas? Não se ama, ao largo, com fome. Não se ama grandemente sem a privacidade de um lugarzinho íntimo. Necessário o estado de contemplação. Como amar pressionado excessivamente, suando sangue para ganhar o pão que mata a fome, com exigência cabal de construir um lugarzinho íntimo, o que permitiria contemplar a vida e o Amor?. Por último, e, talvez para Rita, não menos do que o Tempo, vem o 4. Humor, flexibilidade do espírito para sobreviver em meio aos espinhos. Mau humor arruína qualquer possível atração ao bom, barato (acessível) e belo.

Rita termina sua musical e poética reflexão, leve e profunda, em estribilho: “manter a alma/ para poder ganhar o meu mundo”.

Manter a alma! Malabarismo, Arte, delicadeza. A roqueira complementa - para “ganhar o meu mundo”. Ela poderia ter dito “ganhar o Mundo”, mas sendo a grande filósofa do dia-a-dia, disse “ganhar o meu mundo”. Faz toda a diferença. Ganhar o mundo pessoal é avistar o Mar de Rosas. Mundo efêmero, belo, oceânico, e passível de desaparecimento.

Temos, ao longo da vida, infinitos “instantes-rosas”, na Alma um Mar de Rosas fadadas ao desaparecimento. Manter a Alma, avistar o Mar de Rosas-instantes, chegar lá, só pode ser a nossa maior ambição. Ambição das ambições, manter esta Dona Alma, Inquieta e Mutante.

(quantos Mares de Rosas avista um psicanalista ao seguir o caminho de espinhos?)

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