Minha praça

Por:

Os tradicionais cafés da Praça Barão são sustentados por clientela flutuante e, sobretudo, por uma legião de fiéis freqüentadores que só faz aumentar à medida que o tempo passa. N eles tenho colhido casos interessantes.

Entre os assíduos freqüentadores do Café Sênior estão o Gonzaga e o Chicão. Desde sempre encontro os dois de manhãzinha, dentro ou à porta do café, em profundas digressões a respeito de política, futebol, jogo-do-bicho, calor, terremotos, conflitos daqui e do Oriente Médio, enfim sobre Deus e o Mundo.

Gonzaga é comerciante, enquanto Chicão é um faz-tudo, inclusive nada. São muito próximos e constantemente estão brincando.

Gonzaga e eu conversamos amiúde. Ele desenvolveu o gosto pelo estudo da História, lê muito, comenta fatos comigo. Seu orgulho consistia em possuir livro raro sobre a História de Desemboque. Dia desses, anunciou-me feliz.

- Doei meu livro para a biblioteca da Capelinha. Agora meu livro vai ser mais útil.

Geralmente nossas conversam giram em torno de assuntos históricos, mas ontem entrei no café, deparei-me com os dois amigos, calados, encostados ao balcão, saboreando seu café. A fim de quebrar o gelo, fui falando.

- Parece que a Francana agora vai...

Chicão não perdeu a deixa.

- Vai... agora vai... Ninguém sabe é pra onde..

Gonzaga deu uma bicada no café, depositou a xícara no pires, falou mansa e seriamente.

- Nunca mais volto ao campo da Francana. Nunca mais.

E explicou.

A diretoria do time fez propaganda, pediu apoio dos torcedores. O coração francano impôs obrigação. Então, lá foi o Gonzaga até o Estádio Lancha Filho prestigiar o confronto entre a Veterana e o Batatais. Chegando lá, trancou o carro, prometeu uns trocados ao guardador de carros e, protegido pela blusa de couro e pelo guarda-chuva, correu até a entrada do estádio.

A moça nem olhou para ele. Pegou seu bilhete, falou com voz autoritária.

- Guarda-chuva não pode.

- Como ?

- Larga o guarda-chuva lá fora.

- O quê ? Você está de brincadeira, não?

- Brinco não. Guarda-chuva não pode entrar.

- Você quer que eu veja o jogo debaixo de chuva ?

Confusão armada, veio um militar encarregado da segurança e explicou direitinho. Em caso de briga, o objeto pontiagudo pode se transformar em arma letal, citou exemplos, citou artigos e parágrafos do Código de Defesa do Torcedor.

- Meu senhor, eu tenho mais de sessenta anos, nunca briguei... E olha a arquibancada vazia... Não tem ninguém no campo...

- Não importa. Lei é lei.

Nessa altura do relato, Gonzaga me encarou, como se eu fosse coronel ou presidente da Francana.

- Lei é lei. Agora eu fiz a minha lei: nunca mais entro em campo de futebol.

Surpreso, olhei espantado para o Chicão, esperando que ele acalmasse nosso amigo. Ele piorou tudo.

- A polícia está certa. Agiu assim porque já conhece os antecedentes dele...

A reação do Gonzaga foi dar um murro no Chicão, mas ele, prevendo a reação do outro, já estava lá fora.

Tomei meu café, saí pensativo: a vida em Franca seria menos rica sem os cafés da Praça Barão.

E eu teria mais dificuldade para colher alimentos para minha vida e minha literatura.


Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras